Abacaxi

E aos 6 do primeiro tempo, o mesmo abstract é negado por outro congresso. Quer dizer, praticamente o mesmo abstract, com mudanças mínimas (o deadline foi no mesmo dia em que recebi o “não” da Digra). O interessante neste caso é que, enquanto o reviewer 1 do congresso anterior não conhecia a aplicação do Umwelt (e dizia “desconfiar” da proposta), o atual reviewer 1 diz o exato oposto: que já foi usado e é bom eu pesquisar melhor. Bom, ele falava de affordances + being there, o que não é um conceito vindo da semiótica e, por isso, é bem mais conhecido/aplicado. Mesmo assim, num, negaram porque meu conceito-chave era desconhecido, noutro, porque era conhecido demais (donde eu estaria sendo repetetitiva). Moral da história: eu preciso aprender a escrever abstract, porque, em ambos os casos, se eu tivesse me auto-citado, acho que teria resolvido o problema.

Confesso que este segundo “não” seguido foi mais balde-de-água-fria até do que o anterior (apesar de conversas com pares nacionais terem me tranqüilizado, afirmando que é normal), não tanto pelo problema acima descrito. Em ambos os casos, minha pontuação patinou no quesito “mérito científico” e eu estou aqui com meus botões pensando até onde isso é apenas culpa do abstract… Tenho que repetir algumas vezes que nos quesitos “relevância filosófica” e “relevância para os games studies” a pontuação foi, para um revisor, máxima e, para o outro, muito boa… A pulga que fica atrás da orelha vem do fato d’eu ter feito o doutorado fora do universo dos games per se. Essa era minha preocupação na banca: quem ali poderia trazer essas questões? Claro, nem tanto à terra, nem tanto ao mar: outras questões muito (ou mais) importantes vieram à tona, pois o mundo não se restringe (amém!) aos games studies, mas esses dois “nãos” estão me dizendo que eu tenho que pensar num pós-doc mais stricto sensu…

Ou não. Sei lá. Mas já tenho um bom trabalho para os próximos dias, se quero inscrever este artigo na Intercom e vê-lo receber, finalmente, um sim. 

(Afora tudo isso, continuo meio chateada pelo handicap notório do pobre pesquisador brasileiro, a falta de apoio e a conseqüente dificuldade de circular ou de fazer circular meu pensamento.) Ao mesmo tempo, esse esquema de peer reviewing bem que merece uns cascudos… Um dos revisores contesta frontalmente um conceito: Marie Laure Ryan não considera narrativa uma “habilidade cogntiva”. Pois bem, senhor revisor, leia melhor, na página 9 da introdução do livro Narrative across media”:

(…) On the other hand, narrative is a mental image — a cognitive construct — built by the interpreter as a response to the text. (…) it does not take a representation proposed as narrative to trigger the cognitive construct that constitutes narrativity: we may form narrative scripts in our mind as a response to life.

Estou aqui me consolando, pensando que tudo isso tem que servir — e como serve!!! — de estímulo para de fato escrever o artigo. Vai ser preciso saber separar o joio do trigo — as críticas úteis e as bobagens. No terreno das bobagens, além da supracitada, há uma medida meio subjetiva de até onde ir com o xiitismo do molde “científico”: gastar linhas e linhas dizendo que fulano, beltrano e sei lá mais quem já falaram do assunto, não ser “ensaista” demais e prover dados etc. Mas acho que é preciso mudar o enfoque do artigo…

Ai, ai.

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Game Studies

Hilário este textinho de Julian Kücklich sobre o que ele (ela?) chama de “Game Studies 2.0”, ou seja, um nova fase, pós-narratologia versus ludologia dos estudos dos games. Gostei mais pelas ótimas ironias — o visual Ikea da ludologia, com “cadeiras Juul” e “tapetes Aarseth” (HAHAHAHA!) — mas serve também pela premissa: de que o perfil dos estudos dos games mudou de forma sutil, mas muito importante. É meio esquizo para alguém aqui neste recôndito país “em desenvolvimento” pensar em “game studies 2.0”, sendo que não tivemos nem exatamente o 1.x e estivemos preocupados com outra pegada, mas… Eu, que ando meio aflita com a divulgação de minha própria pesquisa, só posso mesmo é rir do assunto…