(A)Crítica dos games

Deu-me aqui um “cinco minutos”: alguém mais aí se irrita com “crítica” de game que deixa completamente de lado o fato de o game ser… totalmente imbecil? Resenha de game sobre estourar bolinha? Sobre correr e pegar moedinhas? Alô? Tem alguém aí do outro lado?

Deve ser porque eu vim do cinema que sinto imensa falta de games que articulem algum sentido minimamente complexo — e críticas que façam jus à obra. Sim, a forma está evoluindo — pedir que os games articulem sentido complexo talvez seja pedir que “filmes de perseguição” articulassem sentido complexo… Ou não? Se bem me lembro, muito cedo Porter e Griffith já articulavam *algum* sentido… E aí eu me deparo com game scholars/críticos comemorando game de bolinha colorida. Ah, não. Não dá. Menos, moçada. Menos. Entendo que estejamos numa fase — sobretudo nestes tristes e eternamente precários trópicos — de auto-afirmação, mas existe uma linha nem-tão-fina-assim entre jogar confete pra chamar a devida atenção ao nicho e… se fazer de maluco.

Chega a ser meio esquizofrênico — mas, pensando bem, já vivi essa mesma inadequação (para dizer o mínimo), há uns bons 15 anos, quando a crítica de cinema brasileiro ainda inflava obras medíocres. Fato: a crítica reflete a produção (nos melhores casos, pelo menos…) Juro por Deus que lembro de crítica positiva para “O Tronco”, que, afinal, é de João Batista de Andrade — mas que é muito, muito ruim (e eu estou sendo generosa, ao evitar construções bem mais violentas…).

Mas voltemos aos games. Mesmo jogos como Grand Theft Auto IV e Call of Duty: Modern Warfare 2 dão trabalho para o pensamento crítico — por falta de possibilidade de pensamento crítico. Dá trabalho pensar sobre aquilo ali… Mesmo sabendo (e, no meu caso, defendendo o tempo todo) que há que se pensar o “conteúdo” dos games de outra forma, pois a experiência de fruição de um game é bem diferente da de um filme — e daí, ser ou não ser “crítico” muda. Ou, em outras palavras, não é necessariamente porque em GTA você pode atropelar velhinhas e porque em MW2 você é obrigado a massacrar civis num aeroporto russo que tais jogos são ou deixam de ser “críticos”. Ou, dizendo ainda de outra maneira: é justamente porque a experiência de massacrar civis — e como ela é proposta/”vivida” pelo jogador no contexto geral do jogo e do mundo — é o que importa, que parece ainda nos faltar repertório para propor, construir e analisar tais games. Não se pode mais estabelecer relações meramente temáticas com as coisas, pelamordedeus (e se isto é fato compreendido apenas por parte da crítica de cinema, que dirá da de games… se é que existe crítica de games…)

A pergunta tostines não cala: os games são bobinhos porque são feitos pela indústria ou são feitos pela indústria porque são bobinhos? (Pergunta também amiúde dirigida ao cinema, surprise, surprise.) Respondê-la requer cuidado para não ratificar dicotomias rasas, mas negá-la por completo também é reforçar a cegueira. No caso da indústria dos games, há que se levantar algumas questões: 1) o gargalo tecnológico, que possibilita a construção de jogos “cine-realistas” e com inteligência artificial complexa, como GTA e MW2, custa muitos e muitos milhões (certamente muito mais do que um filme independente, sobretudo hoje em dia — e estamos falando de produção apenas, divulgação já é outra coisa…); 2) num mundo criado à base de danoninho e cinema naturalista, o game 3D é o graal que todo mundo quer; 3) com uma indústria em expansão (pelo menos no imaginário contemporâneo), há muito mais cérebros querendo um bom emprego na Electronic Arts do que quebrando a cabeça e comendo sanduíche numa garagem, para fazer o próximo vencedor do Indie Games… (Ou não?)

Mas separemos o joio do trigo: jogo é jogo, “gameart” é “gameart”. Assim como cinema é cinema e videoarte é videoarte — não faltou quem decretasse a morte do primeiro e a emergência hegemônica de formas derivadas do segundo e depois teve que puxar outra conversa em mesa de bar (ou nas bienais européias de arte-tecnologia, o que vier primeiro). O cinema — stricto sensu, a obra audiovisual de ficção (ou não!) de longa duração (mas não apenas) — sobrevive, pulsa, renova-se e continua a dobrar-se sobre o mundo, muitas vezes, ouso dizer, com propriedade infinitamente maior do que muita instalação high-tech por aí — mas isto não é uma tomada de lados, reparem bem. E, nisso, o cinema segue influenciando e é influenciado por outras formas, como não poderia deixar de ser (um texto sobre ecos do cinema nos games e, mais propriamente, dos games no cinema pede para existir urgentemente!).

Agora, o que é exatamente “gameart” eu não sei bem e uso o termo com cautela e certa desconfiança. Dizem por aí que se pode reconhecer uma gameart pela caixa: se tem uma caixa e está numa prateleira de loja, é porque não é gameart. O que acho importante é estabelecer de cara o entendimento de que não há nada de inferior, necessariamente, no game “da indústria”, assim como foram e são produzidas obras importantes em Hollywood, direta ou indiretamente (dentro dos estúdios ou de alguma forma financiada pelo dinheiro que geram). Moot point. Mais: é na massa crítica (no pun intended) de obras gerada pela indústria que se forjam as linguagens, aquém e além de obras artísticas mais ou menos pontuais, criadoras de um ruído fundamental, o que, hoje, nessa rede de interesses e dinheiro chamada “arte”, fica cada vez mais complicado de enxergar (minha opinião pessoal, briguemos civilizadamente, crianças).

Resta ter esperanças de que, como em qualquer ecologia cultural, os games independentes (e não apenas os games) contaminem ne alguma forma a indústria, há alguns anos rodando totalmente em falso, no que diz respeito à introdução de jogos complexos, estética, poética e politicamente falando. Mas, do ponto de vista da crítica, há ainda um problema maior — e pessoal, neste caso: submeter-se a um universo grande o suficiente de games requer tempo e dinheiro, muito além das possibilidades da maioria dos mortais, sobretudo nestes trópicos mancos e contraditórios (onde se cobram impostos astronômicos e fervilha a “pirataria”). Não apenas custam caro os diferentes consoles, os jogos, seus acessórios, as assinaturas de serviços online. Jogar um jogo requer 10 vezes mais tempo do que ver um filme — e um empenho bem maior, uma vez que é possível ver um filme ruim com sofrimento mínimo, mas é preciso colocar muita energia para fazer andar o jogo ruim (sobretudo quando se quer chegar a um ponto específico e potencialmente bom de um jogo ruim). Mais: sandbox games, como GTA, abertos por definição, tornam ainda mais complexo chegar a um “ponto” específico do jogo. Entram aí os cheat codes e walkthroughs e a linha entre jogar e simplesmente cumprir tabela começa a ficar problematicamente confusa.

O sonho desta que vos escreve, neste momento, é começar a aglutinar gente ao redor da crítica de games — não é possível que, na era das redes sociais, a gente não consiga isso. Ao mesmo tempo, esses grupos parecem emergir por força própria, o esforço deliberado é apenas para organizar afetos que já estavam ali, quando paramos para olhar. Será que, então, é preciso apenas… observar melhor?

A ser continuado…

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4 thoughts on “(A)Crítica dos games

  1. Querida Renata Games,
    não entendo do assunto e odeio profundamente os games. No entanto, escrevo para dizer que gostei do seu primeiro comentário. Mas você ainda não respondeu: por que os games precisam ser tão idiotas, para não dizer fascistóides? Por que são feitos por americanos fascistas? Por que o mundo é mesmo esta barbárie e não tem jeito? Por que eu não conheço nada de games, a não ser aqueles que meu filhote contrabandeia com os amigos deles e me mostra, para minha estupefação completa? Sei que a violência sempre esteve presente nas histórias infantis. Mas será que os games (lembro-me por alto do GTA) precisam ser o assassinato em série de transeuntes, civis, criancinhas de bicicleta? Abraços, do Tinhorão

  2. Querido Tinhorinha,
    é uma pergunta ainda sem resposta clara, creio. Por um lado, tiro é fácil de implementar. É clique-pou, cabô. Não precisa de inteligência artificial e é uma dinâmica que todo mundo conhece, além de ter um vínculo atávico com todos. Ou quase todos. Já é clichê dizer que é a brincadeira de bandido e mocinho contemporânea — e tem um lado muito legal, honestamente. Por outro lado, dizem ser a herança militarista doada aos games, que nasceram e foram criados (como sói acontecer com as tecnologias de ponta) na indústria bélica. E ainda são usados como arma de recrutamento e de treinamento. Certamente, tem a ver com o que descrevi acima, ou seja, com a indústria dos games, particularmente mais tacanha, em termos de conteúdo, do que qualquer outro universo. Mas tem outras coisas nos games, sim, e não apenas nos independentes. Poucas, mas tem. Agora: nem todo moleque da idade do teu filho gosta… Aí já é outra questão 😛

  3. Olá Renata, minha nova professora de Edição. Fico feliz em saber que tenho algum professor que também considere os jogos digitais como parte de audiovisual, já que 90% dele é composto de cinema.
    Já faz algum tempo que os jogos entraram em um caminho onde o que realmente importa é o dinheiro que será feito deles, e para isso o que mais fazem é se utilizar de um poderio gráfico que se assemelhe à realidade. Com isso, mais assistimos do que jogamos algo com focos narrativos praticamente esquecidos.
    Há alguns anos, jogos com bolinhas coloridas e personagens que pegam moedas era o que ocupava nosso tempo. Hoje é necessário que haja algum tipo de interação, psicologicamente falando, com a personagem do jogo. Em Modern Warfare 2, que terminei e posso opinar firmemente, temos um exemplo clássico de uma história deixada em segundo plano com momentos sem necessidade de pensamento e extremamente radicais ao ponto de ganhar atenção em massa.
    Ainda encontramos raridades no meio, como Shadow of the Colossus, que para mim é uma das maiores obras de arte já feitas, mas são poucos que são comentados pelo público em massa. Não acredito que estejamos esperando muito, apenas queremos ser tratados como ser humanos racionais, e não simples máquinas de apertar botões.

    Se puder, dá uma passada no meu blog e veja o review que fiz de COD-MW2. Beijos! Adorei suas matérias!

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