Ponto a ponto

(Abaixo, resposta a um comentário numa discussão sobre o cartão de ponto para professores universitários. Resolvi postar aqui, pois, mesmo fora do contexto da discussão como um todo, revela o que penso sobre o assunto e acho que merece ser dito.)

Caro Fulano, (…) você demonstra pouco conhecimento sobre cartão de ponto, sobre a função de professores em geral, sobretudo do ensino superior, ainda mais professores doutores e, certamente, sobre esta professora em particular (…).
Não tenho tempo de responder ponto a ponto – porque, como professora doutora, trabalho MUITO e isso não tem absolutamente NADA a ver com cartão de ponto e sim com ética – digo apenas o seguinte: a natureza do trabalho de um professor, doutor ou não, de qualquer nível de ensino, é totalmente diferente da de outros tipos de profissão, como, por exemplo, o tal Zé da Padaria. O professor, esse ser por quem você parece ter um certo desprezo, é, por definição, um sujeito que, quando está em sala de aula, está exercendo apenas uma parte do seu trabalho. O resto desse trabalho, por sinal, como já disse, muito pesado, ele exerce estudando, pesquisando, preparando aula, elaborando metodologias mais eficientes de ensino, corrigindo trabalhos, atendendo alunos, algumas vezes até se envolvendo pessoalmente com problemas de alunos. Posso falar sobre tudo isso com muita tranquilidade, pois estou falando da *minha* vida e da de vários outros professores que conheço. Vários, eu disse e repito.
A natureza desse trabalho, que só é enxergado por uma parcela da população na sala de aula – você, aparentemente – torna o cartão de ponto um assessório completamente sem sentido. E não apenas porque o professor não vai passar o cartão na hora em que o aluno o aborda no corredor (ou lhe envia um email), porque ele não vai passar o cartão quando abre um livro ou escreve um artigo, porque ele não vai passar o cartão enquanto está sentado no seu escritório – de casa, sem ganhar nada para isso – como eu fiquei ontem, quebrando a cabeça para inventar um método de ensino eficiente para uma turma de 55 alunos. É também extremamente inútil porque inverte a lógica de uma profissão, a partir da lógica de uma lei engessada e anacrônica, como a lei trabalhista do Brasil. Bem entendido: professores – doutores ou não – estão sendo obrigados a bater cartão de ponto não para que sua presença física – e muito menos a qualidade de suas aulas – seja controlada, mas para cumprir uma exigência burocrática e impedir que brechas legislativa dêem margem a processos trabalhistas contra a instituição. SÓ ISSO, meu caro – a presença dos professores era controlada, contra isso não tenho nada. Ou melhor, tenho, contra o termo “controle” – mas esta é outra questão.
O cartão de ponto é uma metodologia de controle extremamente antipática e ultrapassada para praticamente todas as profissões e isto é consenso pelo mundo a fora. Ou seja: a depender da função do Zé da Padaria, ele também não deveria ser *obrigado* a bater cartão de ponto – e eu não me recordo de ter colocado dado nenhum indício de que eu penso assim, foi uma presunção sua, aliás, se me permite, que revela, de sua parte, um grande preconceito.
Para finalizar: esse preconceito de classe *invertido* que você tem é que é “ridículo” (para usar as suas próprias palavras). Professores doutores não são melhores que o Zé da Padaria – e eu nem disse, nem penso, nem ajo sob essa premissa, pergunte aos “zés” das padarias que frequento. Contudo, num “país realmente educado”, os “concidadãos” também compreendem que professores doutores deveriam ser respeitados pelo seu conhecimento e pela função *social* que cumprem. Aliás, *professores*, todos, seriam respeitados, se tivessem seu papel reconhecido na sociedade, como gente que participa de forma importante na construção de um futuro melhor. Os doutores, em particular, têm, em sociedades mais desenvolvidas que esta, o reconhecimento de terem estudado mais 6, 8, 10, 15 anos -a depender da época em que se doutoraram – para se tornarem pesquisadores de ponta e educadores sofisticados. Não merecem ser tratados com o desrespeito de uma instituição como as de ensino superior neste país, que agem EXATAMENTE COM O MESMO PRECONCEITO INVERTIDO QUE VOCE DEMONSTROU EM SEU COMENTARIO, partindo de um sofisma simplista de que se o Zé da Padaria bate ponto, é “justo” o professor também bater e que, recursar-se a fazê-lo é arrogância ou “orgulho ridículo”.
Lamento que você tenha estudado numa universidade pública, pelo visto, muito ruim. Eu estudei numa que tinha muitos problemas, mas a vasta maioria dos meus profs era mto boa, aparecia para dar aula na hora certa, todos os dias, me ensinou muito, alguns são meus mentores até hoje. E, adivinhe: NÃO ASSINAVAM PONTO!
Nota 5 para o seu comentário*. Com um pouco mais de estudo você passa.
* Ele havia dado “zero” para a minha crítica contra o cartão de ponto para professores.
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8 thoughts on “Ponto a ponto

  1. Certamente este sistema de “bater ponto”, o qual me remete ao século XVIII – bons tempos… hahaha- oferece, para dizer o mínimo, muito aborrecimento. Eu concordo, sim, que o professor deve ser pontual, presente e deve proporcionar aulas produtivas, na medida do possivel, utilizando o tempo da aula em sua totalidade, sem contar todo o conhecimento transmitido “extra classe”. Minha opinião é a de que tal “burrocracia” pode ter sido adotada também para garantir tudo isso (assim espero), mas sua ineficiência não precisa ser reafirmada aqui por mim, assim acredito.
    Em alguns momentos, infelizmente, precisamos testemunhar exemplos de retrocesso em nossa sociedade, mas, por outro lado, gosto de me deter nas estimulantes e inspiradoras evoluções. Considero este blog e a dedicação desta professora e de tantos outros professores, ótimos exemplos disso.

  2. valeu, gabi. foi um mega desabafo. falta só alguém da fiRma ler (e entender, o que são coisas beeeeeem diferentes…)

  3. Valeu, Ligia. É uma luta diária combater esse pensamento reducionista, de cartõezinhos, planilhas, formulário… mas, afinal, se não gostássemos de lutas diárias em prol da emancipação intelectual, não seríamos professoras, né? 🙂
    Abraços!

  4. Texto maravilhoso!Amei! Só quem não trabalhou como professor, com toda dedição que este trabalho exige, não sabe o quanto o nosso trabalho é além da sala de aula!
    Parabéns, colega!
    Abraços!

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