Só diversão

O que queremos?

O vai e vem das ondas digitais me trouxe a notícia: Brasileiros lançam game Favela Wars. Pelo que informam matéria e trailer, temos aí mais um jogo de estratégia entre grupos antagônicos, agora passado na favela carioca. O servidor estava fora do ar no momento em que o jornalista tentou jogar, o que é um bom indício de sucesso inicialmente e os desenvolvedores anunciam que já trabalham para portar o jogo para iOS e Android, seguindo as tendências do mercado.

Uma empreitada desse porte será, com alguma razão, provavelmente celebrada por pelo menos parte da “classe” – jogadores, desenvolvedores, associações de empresários, jornalistas e acadêmicos dos games – mas o que me chamou atenção foi a declaração à Folha do diretor do Estúdio Nano, que produziu o Favela Wars: “não queremos fazer uma crítica social, é só um game de diversão”. Depois essa mesma “classe” reclama da famigerada declaração da Ministra da Cultura, Marta Suplicy: “games não são cultura”

Na declaração, Estúdio Nano e MinC se encontram na visão (limitada) de cultura e do que podem os games. Quando um ministério – e um governo – patinam nesse entendimento de cultura e tratam games exclusivamente como tecnologia, entretenimento ou comércio, dá nisso: a gente tem que celebrar um jogo que se chama Favela Wars como horizonte de nossas possibilidades estéticas, políticas e até mesmo comerciais.

Se agir como de costume, boa parte da “classe” defenderá o anglicismo do título como necessário à “inserção no mercado internacional” e nem se importará em questionar a propagação da favela apenas como lugar do crime e da violência. Talvez nem sequer repare no perfil étnico dos dois times: policiais – que têm “técnica, disciplina e precisão” – de pele clara e traficantes – descritos a partir da frase “a morte vem de cima” – de pele escura. Será surpreendente também se alguém chamar atenção para a filiação problemática do game ao universo estabelecido pelo filme Tropa de Elite (a parte I, pois mesmo a parte II já fez alguma auto-crítica…), de celebração dos “caveiras” em sua excelência técnica e demonização dos traficantes em sua maldade – sem nuance pra nenhum dos dois lados.

A adoção do anglicismo é mais um sintoma do isolamento de um nicho que, inclusive pelo posicionamento ambíguo do MinC, não emerge efetivamente da cultura local (na medida em que isso é possível), nem parece querer dialogar com ela de forma mais plena. Por isso, se preocupa mais em se adequar a requisitos “de mercado” e fazer algo que é “só diversão”, em vez de, por exemplo, aproveitar a natureza aberta da forma jogo para colocar em ação a complexidade das formas de vida que são inventadas e levadas adiante nas favelas – pra me ater ao universo temático do game em questão.

Ora, se esse modelo “industrial” tem dado sinais de cansaço mesmo lá onde a indústria (do entretenimento, que inclui a do game) de fato existe, por que haveria de funcionar aqui? Se não funciona aqui nem para o cinema, modelo muito mais homogêneo, por que haveria de funcionar para uma forma heterogênea, não sistematizada nem como narrativa e nem como linguagem? Se mesmo nos EUA e Europa, onde pululam milhões pra a produção de games com a fina flor da tecnologia e roteiros de duas mil páginas, quem ganhou todos os prêmios de melhor jogo do ano em 2012 foi um game “indie” como Journey, por que haveria o Brasil de seguir pelo caminho da indústria de jogos “só de diversão”, pensados como tecnologia para alimentar um mercado cada vez mais estéril? E, ainda: por que haveríamos de querer esse modelo, mesmo se ele funcionasse a contento num contexto totalmente diverso do nosso, se podemos mais e melhor???

A discussão que precisa ser levada adiante pela “classe”, a meu ver, não é nem a do Vale Cultura – que deveria ser apenas um paliativo e não o carro chefe das políticas públicas do MinC – e nem a do “game é cultura?” – porque a resposta pra essa última pergunta é óbvia (dica: até mesmo o Favela Wars é cultura!). O que a “classe” dos games deveria estar debatendo (unindo-se aí a um coro muito mais amplo) é qual conceito de cultura embasa (ou deveria embasar) o MinC e, a partir daí, quais políticas públicas precisam ser encampadas para que os games possam florescer não apenas como tecnologia e comércio – dupla-chave por trás das obras que se pretendem “só diversão” e encampam o engessadíssimo neo(pseudo)desenvolvimentismo do governo federal – mas como terreno de uso, experimentação, reapropriação, modificação diversos e potentes.

E essa discussão, entre a euforia celebratória de uma “proto-indústria” e a gritaria em torno do famigerado pronunciamento da Ministra, eu ainda não vi. Terei perdido alguma coisa?

—-

Update: que cultura o quê, game é coisa do demo!!! Hahaha…

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4 thoughts on “Só diversão

  1. O problema é que, como o próprio diretor do estúdio falou, no Brasil, a grande massa de gamers está acostumada com os jogos de entretenimento. Poucos são os jogadores Indie, que são os jogos que normalmente se preocupam com cultura e arte. Agora, com as facilidades da plataforma Steam, as coisas podem melhorar. Mas fora do âmbito gamer Indie, o que mais vejo são as pessoas adquirindo consoles por jogos de futebol ou tiro em primeira-pessoa…
    Mas, como tudo no Brasil, as coisas vêm aos poucos. Acho que é questão de tempo para surgirem muitas boas iniciativas de jogos em cultura.

    • Pois é, grande Lucas, mas a questão é que esse cenário que você tão bem descreve e que os próprios desenvolvedores brasileiros parecem achar okay é de responsabilidade do MinC. A Ministra não pode querer que se reverta isso por milagre, quando a pasta dela é que é responsável por políticas públicas em torno (também) da produção cultural. No caso do Vale Cultura, a contradição é que o MinC diz que pode ser usado pra comprar até “revista de fofoca”, sem falar de todo tipo de livro. Então, Contigo e Crepúsculo são cultura, mas games – de PES a Journey – não são? Não dá, né?

  2. Pois é, grande Lucas, mas a questão é que esse cenário que você tão bem descreve e que os próprios desenvolvedores brasileiros parecem achar okay é de responsabilidade do MinC. A Ministra não pode querer que se reverta isso por milagre, quando a pasta dela é que é responsável por políticas públicas em torno (também) da produção cultural. No caso do Vale Cultura, a contradição é que o MinC diz que pode ser usado pra comprar até “revista de fofoca”, sem falar de todo tipo de livro. Então, Contigo e Crepúsculo são cultura, mas games – de PES a Journey – não são? Não dá, né?

    • não, não dá!
      ;(
      Temos exemplos de jogos com forte carga cultural, como é o caso do capoeira legends…
      Não quis dizer que a ministra estava correta, mas quis exatamente dizer que logo mais vai ser impossível não classificar jogos como cultura! Já está óbvio, por diversos motivos, tanto pelo forte apelo cinematográfico de vários jogos, quanto por temas e assuntos abordados..
      É só questão de tempo.. A ministra não vai ter força de segurar a posição dela por muito tempo.

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