Os golpistas que não amavam as mulheres

Wladimir Costa (SD-PA) foi “flagrado” ontem pelo fotógrafo Lula Marques enquanto enviava mensagens de cunho sexual, durante a sessão de votação que se concluiu pedindo o arquivamento do processo de investigação por corrupção do golpista que ora nos desgoverna. Numa das mensagens, o deputado pede um “nude” de sua interlocutora, argumentando: “mostra tua bunda mostra afinal não são suas profissões que destacam como mulher é sua bunda. Vai lá põe aí garota”.

Wladimir Costa whatsapp misógino nudes

Não é a primeira vez que Lula Marques fotografa as mensagens privadas de deputados e as publica. De todas as outras vezes, eu discordei dessa invasão, muito embora abomine profundamente suas vítimas. Porque, sim, é invasão de privacidade em qualquer definição digna do termo. Enviar mensagens, mesmo pedindo nudes de forma misógina, não é ilegal e fazê-lo em espaço público, mesmo durante o trabalho, não dá a ninguém, muito menos a um fotógrafo com uma zoom, o direito de registrá-las e publicá-las. Correspondência pessoal é inviolável.

CONTUDO, já que o deputado não tem pudor nenhum de avacalhar a legalidade nos mais diversos níveis, então, que se lasque a legalidade. Se não é pra todo mundo, não vai ser pra ninguém. Não dá pra preservar a Constituição só para alguns.

Além do mais, que alguém que se sentiu completamente à vontade de protagonizar os píncaros do horror ontem sequer se dê ao trabalho de se dedicar à sessão e ainda comprove em texto sua misoginia é uma bruta evidência de quem são os deputados que afundam o país.

Some-se a isso o fato de que o deputado, em anterior showzinho de horrores, alegou ter tatuado o nome do golpista em seu corpo (embora tatuadores afirmem que se trata de tatuagem temporária, com henna). Não à toa, é o mesmo gesto usado por muitos para fazer uma perene declaração de amor romântico. A um homem, Costa declara o amor em forma (supostamente) extrema, à mulher, pede “nudes”, porque o que as define é sua bunda.

wladimir costa tatuagem

Não foi possível não lembrar imediatamente da mais precisa e sensacional citação de Marilin Frye:

Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admira; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam; idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles dejesam; estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva, ela cultiva o amor pelos homens.

Existe uma ligação direta entre a cruzada anti-democrática que retira sem motivos válidos uma presidenta do posto para o qual foi eleita – mas arquiva uma investigação sobre corrupção do homem que foi colocado em seu lugar – e o ódio intrínseco à misoginia (ao racismo, à homofobia, à xenofobia, à intolerância religiosa e afins). Não à toa, na sessão que abriu processo contra Dilma, o que não faltaram foram odes à família, à igreja (e à propriedade) e teve até deputado que se sentiu à vontade para homenagear um torturador condenado (sabia, como está comprovado, que ficaria impune).

O feminismo diz há tempos para a esquerda que nossa luta não é “identitária”, ela é constituinte de todos os sentidos potentes de democracia, muito além da representatividade num sistema que, como se vê em cada sessão desse congresso, está claramente falido. Novamente: se não for pra todo mundo – inclusive mulheres, povo negro, LGBTs, refugiados, nordestinos, religiões de matriz afro… – não vai ser pra ninguém.

O problema, contudo, é que a esquerda também é controlada por homens que veem mulheres como bundas. Em menor quantidade do que a direita? Talvez. Ainda assim, em quantidade suficiente para que nada de potente possa ser construído.

E aqui estamos.

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Censurada pelo Facebook

Ontem, meu post foi sumariamente CENSURADO pelo Facebook, suponho (não tenho como saber, a plataforma não explica, justifica ou abre possibilidade de defesa) que enquadrado como “discurso de ódio”. Como poderão ver abaixo, é apenas um post que explica porque todo homem, pelo menos até um determinado momento, é visto pelas mulheres como uma ameaça em potencial. Fica implícito no post – para quem tem capacidade mínima de compreensão de texto ou cuja inteligência não foi embotada pelo machismo – que todo e cada homem não será efetivamente um agressor/estuprador/feminicida. O que ocorre apenas é que nós, mulheres, não temos como saber quem serão os agressores ou não, uma vez que a violência masculina acontece em espaços públicos e privados, perpetrada por homens desconhecidos e conhecidos, de todas as classes sociais, aparências, etnias, religiões, ideologias etc. Ou seja, em geral, não temos como saber se um homem é ou não um potencial agressor, porque boa parte deles não era, até um belo dia ser. Os fatos provam o que dizemos.

Meu post foi censurado e, em protesto a isso, várias amigas publicaram um print dele. Apenas um deles tinha, até mais ou menos o meio-dia de hoje, 1º de agosto, quase mil compartilhamentos que reafirmavam seu conteúdo e repudiavam a censura misógina do Facebook.

Pois bem, este print também foi rapidamente censurado pelo Mark Zuckerberg e várias pessoas que o compartilharam, quase todas mulheres, foram sumariamente bloqueadas.

Publico aqui novamente o texto do post, o print censurado, numa tentativa de resistir a esse silenciamento, que constitui um grave ataque à liberdade de expressão, minha e de outras mulheres e até de vários homens, que conseguiram compreender meu post, concordar com ele e, por isso, o compartilharam.

Precisamos URGENTEMENTE nos posicionar e rechaçar o autoritarismo do Facebook. Essa censura é inconstitucional e não vitimiza apenas mulheres, mas potencialmente todo e qualquer indivíduo ou grupo que use a plataforma para denunciar as diversas violências desta sociedade. A Constituição Brasileira garante a liberdade de expressão, salvo em caso de crime e nenhum crime existe neste post, que é, inclusive, bastante generoso com os homens.

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