Primeiro Cinema

Abaixo, alguns marcos da história do cinema, referência dos procedimentos de linguagem de que falamos na 1ª aula:


Grandma’s reading glass, 1900
Uma primeira estrutura de olhar-coisa olhada, ponto de vista, close up, ainda justificada pela máscara/lente


Stop Thief! 1901
Um dos primeiros “filmes de perseguição”, ainda sem a regra de eixo de direção de movimento.


Life of an American Fireman, 1903
Uma das primeiras tentativas de montagem paralela, ainda tateante.


The Great Train Robbery, Edwin S. Porter, 1903
A linguagem já começa a se sistematizar: montagem paralela, planos de detalhe, campo/contracampo. Mas… onde colocar aquele close up frontal no final???


The Girl and her Trust, D.W. Griffith, 1912
O “grau zero” da linguagem já praticamente estabelecido.

 

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Só diversão

O que queremos?

O vai e vem das ondas digitais me trouxe a notícia: Brasileiros lançam game Favela Wars. Pelo que informam matéria e trailer, temos aí mais um jogo de estratégia entre grupos antagônicos, agora passado na favela carioca. O servidor estava fora do ar no momento em que o jornalista tentou jogar, o que é um bom indício de sucesso inicialmente e os desenvolvedores anunciam que já trabalham para portar o jogo para iOS e Android, seguindo as tendências do mercado.

Uma empreitada desse porte será, com alguma razão, provavelmente celebrada por pelo menos parte da “classe” – jogadores, desenvolvedores, associações de empresários, jornalistas e acadêmicos dos games – mas o que me chamou atenção foi a declaração à Folha do diretor do Estúdio Nano, que produziu o Favela Wars: “não queremos fazer uma crítica social, é só um game de diversão”. Depois essa mesma “classe” reclama da famigerada declaração da Ministra da Cultura, Marta Suplicy: “games não são cultura”

Na declaração, Estúdio Nano e MinC se encontram na visão (limitada) de cultura e do que podem os games. Quando um ministério – e um governo – patinam nesse entendimento de cultura e tratam games exclusivamente como tecnologia, entretenimento ou comércio, dá nisso: a gente tem que celebrar um jogo que se chama Favela Wars como horizonte de nossas possibilidades estéticas, políticas e até mesmo comerciais.

Se agir como de costume, boa parte da “classe” defenderá o anglicismo do título como necessário à “inserção no mercado internacional” e nem se importará em questionar a propagação da favela apenas como lugar do crime e da violência. Talvez nem sequer repare no perfil étnico dos dois times: policiais – que têm “técnica, disciplina e precisão” – de pele clara e traficantes – descritos a partir da frase “a morte vem de cima” – de pele escura. Será surpreendente também se alguém chamar atenção para a filiação problemática do game ao universo estabelecido pelo filme Tropa de Elite (a parte I, pois mesmo a parte II já fez alguma auto-crítica…), de celebração dos “caveiras” em sua excelência técnica e demonização dos traficantes em sua maldade – sem nuance pra nenhum dos dois lados.

A adoção do anglicismo é mais um sintoma do isolamento de um nicho que, inclusive pelo posicionamento ambíguo do MinC, não emerge efetivamente da cultura local (na medida em que isso é possível), nem parece querer dialogar com ela de forma mais plena. Por isso, se preocupa mais em se adequar a requisitos “de mercado” e fazer algo que é “só diversão”, em vez de, por exemplo, aproveitar a natureza aberta da forma jogo para colocar em ação a complexidade das formas de vida que são inventadas e levadas adiante nas favelas – pra me ater ao universo temático do game em questão.

Ora, se esse modelo “industrial” tem dado sinais de cansaço mesmo lá onde a indústria (do entretenimento, que inclui a do game) de fato existe, por que haveria de funcionar aqui? Se não funciona aqui nem para o cinema, modelo muito mais homogêneo, por que haveria de funcionar para uma forma heterogênea, não sistematizada nem como narrativa e nem como linguagem? Se mesmo nos EUA e Europa, onde pululam milhões pra a produção de games com a fina flor da tecnologia e roteiros de duas mil páginas, quem ganhou todos os prêmios de melhor jogo do ano em 2012 foi um game “indie” como Journey, por que haveria o Brasil de seguir pelo caminho da indústria de jogos “só de diversão”, pensados como tecnologia para alimentar um mercado cada vez mais estéril? E, ainda: por que haveríamos de querer esse modelo, mesmo se ele funcionasse a contento num contexto totalmente diverso do nosso, se podemos mais e melhor???

A discussão que precisa ser levada adiante pela “classe”, a meu ver, não é nem a do Vale Cultura – que deveria ser apenas um paliativo e não o carro chefe das políticas públicas do MinC – e nem a do “game é cultura?” – porque a resposta pra essa última pergunta é óbvia (dica: até mesmo o Favela Wars é cultura!). O que a “classe” dos games deveria estar debatendo (unindo-se aí a um coro muito mais amplo) é qual conceito de cultura embasa (ou deveria embasar) o MinC e, a partir daí, quais políticas públicas precisam ser encampadas para que os games possam florescer não apenas como tecnologia e comércio – dupla-chave por trás das obras que se pretendem “só diversão” e encampam o engessadíssimo neo(pseudo)desenvolvimentismo do governo federal – mas como terreno de uso, experimentação, reapropriação, modificação diversos e potentes.

E essa discussão, entre a euforia celebratória de uma “proto-indústria” e a gritaria em torno do famigerado pronunciamento da Ministra, eu ainda não vi. Terei perdido alguma coisa?

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Update: que cultura o quê, game é coisa do demo!!! Hahaha…

A vida em cena

E um textinho de hoje para complementar o da Ilana: O Facebook está contra a alegria, por Evgeny Morozov (pra continuarmos na próxima aula a reflexão sobre a construção da subjetividade alterdirigida nas redes sociais e algumas de suas contradições. Ou, a pergunta: você é o que você posta?)

Tá aqui o texto da Ilana Feldman: A vida em cena: vida-produto, vida-lazer, vida-trabalho, vida-performance, que fala, entre outras coisas, do filme Pacific, que vimos em sala hoje.

(Para quem quiser um pdf mais “legível” do texto da Ilana, tem aqui:  A vida em cena)

Texto do crítico Carlos Alberto Mattos, A classe média vai ao paraíso; crítica do Fábio Andrade, na Cinética; comentários de Jean-Claude Bernardet sobre o filme, troca de mensagens com o diretor Marcelo Pedroso.

A vida em cena

Para discutirmos na próxima aula & SER COMENTADO NOS BLOGS, o texto da Ilana Feldman: A vida em cena: vida-produto, vida-lazer, vida-trabalho, vida-performance. Gostaria que vocês tentasse aprofundar a relação entre o texto, o filme Pacific, exibido em sala de aula e a construção da identidade de vocês a partir das redes sociais, videogames online e a vida presencial. Também o texto do Lucas, Síndrome de Realidade (para próxima aula+blog).

(Para quem quiser um pdf mais “legível” do texto da Ilana, tem aqui:  A vida em cena)

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Livro do Lucas, Microcinemas, ao qual ele se referiu hoje em aula.

Texto do crítico Carlos Alberto Mattos, A classe média vai ao paraíso; crítica do Fábio Andrade, na Cinética; comentários de Jean-Claude Bernardet sobre o filme, troca de mensagens com o diretor Marcelo Pedroso.

Secretaria do Audiovisual Industrial (?)

E segue a sensação de retrocesso de pensamento e postura liderada pelo MinC de Ana de Hollanda, agora com a entrevista de sua secretária do audiovisual, Ana Paula Santana. Sobre a entrevista, deixo os comentários maiores e melhores para o Cezar Migliorin, que em seu blog fez observações muito precisas sobre boa parte do que soam, para mim, como retumbantes equívocos de pensamento, análise de conjuntura e planejamento de ação da secretária. Se nada mais, eu tenho que dizer o seguinte: à ideia do reality show com os coletivos criativos eu nem sei que nome dar, honestamente. Vêm à mente “risível”, “patética”, “ingênua”, “arrogante”, mas acho que há outras palavras igualmente boas. Parece partir do princípio – comentado pelo Cezar – de que não há, Brasil afora, um sem-número de coletivos em ação, de onde tem emergido o que é possivelmente a mais inquietante e diversa produção audiovisual brasileira hoje em dia, cuja prática não precisa – e não deve – ser conformada à estrutura industrial (da forma como a SAV parece concebe-la), menos ainda transformada em commodity comportamental num (será que eu li direito???) reality show, com os criadores sendo filmados 24hrs por dia e seu processo criativo alçado à categoria de método a ser disseminado como mais “eficiente”. (Oh, god…)

Migliorin havia escrito já um texto na Cinética, em que ele explica o que chama de “cinema pós-industrial”, e que, da forma como eu entendo, não pretende eliminar a produção industrial (necessariamente), mas fazer jus a demandas de criação e fruição que já existem, que emergiram de um cenário social, cultural, tecnológico real e urgente e que não pode ser negado, nem mesmo sob a ingênua intenção de “melhorá-lo”, alçando-o a uma categoria “mais profissional”. Como bem diz Migliorin, existe um público para esses filmes e ele continuará existindo, como continuarão os coletivos criativos, quem não os abarca são as salas e a estrutura industrial. O que está em jogo é a necessidade de que o estado potencialize essas estratégias pós-industriais já em ação (e renovação constante, por sua própria definição). Ou, nas palavras literais dele: “o papel do estado é potencializar o descontrole”.

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Numa nota mais pessoal: nesses últimos oito anos, vimos no Brasil a emergência real, descentralizada em todos os aspectos e incentivada de diversas maneiras pela gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira do MinC, de um cenário extremamente diverso de produção audiovisual. Inúmeras obras audiovisuais em algum ponto do espectro da ficção à não-ficção foram produzidas por pessoas e grupos em diversos lugares do país, com perfil sócio-cultural-econômico diverso, com finalidades, públicos e possibilidades de divulgação diferentes. Nesse cenário, surgiu, por exemplo, o coletivo Alumbramento, em Fortaleza, uma cidade que, até o surgimento desse grupo, contava com um cenário audiovisual extremamente engessado (com raras exceções, das quais destaco o trabalho do pessoal do Alpendre, sobretudo do Alexandre Veras, que de certa forma fomentou o surgimento da Alumbramento), do ponto de vista estético e de produção. Formada por jovens cuja média de idade está abaixo dos 30 anos, a Alumbramento tem produzido obras audiovisuais curtíssimas, curtas, médias e longas, da ficção à não-ficção, dentre as quais, por exemplo, o longa Estrada para Ythaca, dos irmãos Luiz e Ricardo Pretti e de Pedro Diógenes e Guto Parente. Os quatro juntos escreveram, dirigiram, produziram, atuaram, fizeram fotografia, som e montagem do filme. O longa foi premiado no Festival de Tiradentes e no Cine Ceará e rodou festivais pelo Brasil e o mundo, sendo citado, entre outros, numa ótima matéria de Pedro Butcher para a Cahier du Cinéma sobre o cinema brasileiro contemporâneo. Assim como Ythaca, há inúmeros outros filmes dos “meninos” e “meninas” (como eu gosto de chamar muitíssimo carinhosamente) da Alumbramento, que são, ao mesmo tempo, consequência e causa de uma ecologia de fruição, reflexão e produção audiovisual que não começa nem se encerra nisso que o MinC insiste em enquadrar como produção industrial. E, assim como a Alumbramento, há, Brasil afora – possivelmente pela primeira vez, de fato, vazando para fora do eixo Rio-SP – um cenário vivo e pulsante de coletivos, que geram um ruído maravilhoso tanto nas possibilidades estéticas do audiovisual que se faz no Brasil quanto demonstram, por sua própria existência, que já há novas formas de produção em curso.

A questão não é dar as costas para a produção industrial (e isso deveria ser óbvio), mas também não dá-las, sob a desculpa instituicional e paternalista da profissionalização, a esse universo que, repito (exasperadamente) já existe, já está aí, já produz, já distribui, já ressoa, já influencia, já se dobra e desdobra, já forma. A questão é, retomando o Cezar, que é papel do estado continuar potencializando esse universo e, além de, antes de tudo, não cometer a burrice e o crime de tentar cristalizá-lo (palavras minhas), também criar e institucionalizar novas maneiras de fomentá-lo (e seguir as que já surgiram, como os pontos de cultura, os editais reinventando os brasis etc.).

Mesmo não sendo diretamente ligada à área das políticas culturais – mas sendo muito diretamente ligada à área de formação profissional do audiovisual – intuo e seria capaz de apostar que colheremos por muito tempo (seja qual for a linha de ação finalmente seguida pelo MinC) os frutos dessa política cultural progressista, democrática e decentralizada levada a cabo pela gestão Gil/Juca. Digo mais: tenho a impressão de que os impactos são de ordem muito maior do que “apenas” o surgimento de uma nova geração de produtores audiovisuais como o pessoal da Alumbramento. O impacto dos pontos de cultura e de editais como o Revelando os Brasis é de uma potência e sofisticação que transcende e muito o nicho profissional audiovisual, sobretudo quando este é visto do ponto de vista exclusivamente industrial. Trata-se de formação cultural no sentido mais amplo (e democrático) do termo.

Vem-me à mente o caso de Sidnéia, habitante de uma praia ainda um tanto rústica do litoral do Ceará que, por conta desse edital para cidades de até 20 mil habitantes, fez um filme sobre si mesma – ela que é uma rara e muito particular pescadora (uma mulher numa profissão arriscada e tradicionalmente masculina). Eu até conheço a Sid, como ela é chamada lá na Redonda, mas nunca conversei com ela sobre o filme. Contudo, por todos os motivos, dá pra imaginar que tipo de processo se inicia dentro que alguém que ganha voz para se autofabular num filme – e de que forma isso repercute em sua comunidade. O impacto é imensurável e genial.

A gestão anterior do MinC, embora imperfeita (como imperfeito também o governo que a chancelou), teve o grande mérito de dar, possivelmente pela primeira vez no Brasil, atenção decente a ações desse tipo, de “pequeno porte” e, certamente, de pouca visibilidade direta. E é por isso que eu e tantos outros gostamos tanto dela e estamos inconformados com o que parecem ser indícios de uma nova política – no sentido macro do termo – que retorna às ações de “grande porte” e, certamente, alta visibilidade, em detrimento dessas todas que citei (e há muitas mais).

Tal guinada seria um retrocesso monumental. Não perceber isso é perder o bonde do Zeitgeist. Loucamente.

Micro cinemas

Alguns exemplos (comentados na aula pelo Lucas, por alunos ou que dialogam com a aula):


The artwork in its age of mechanical reproducibility – Keith Sanborn


Bed Intruder (comentário da Thaiana)


Cala Boca Galvão, o remix na era do Twitter

I Know Where Bruce Lee Lives (o site que transforma seu computador num remixer de filmes de Bruce Lee)


Addictive TV


Kutiman

Postcard (Lucas Bambozzi)

Mais sobre os Postcards, do Lucas e aqui.


Trailer de Fim do Sem Fim (Beto Magalhães, Cao Guimarães e Lucas Bambozzi)

Download do software gratuito Korsakow (para vídeos interativos, alguns exemplos de vídeos feitos com esse software aqui).

Inception in Real Time

Ou: da montagem paralela às multiplas janelas, mais que linguagem, uma outra possibilidade de compreensão narrativa. Eu tinha muita vontade de ver esse filme como camadas (numa estrutura que ultrapassasse a tela) e que representasse visualmente, como camadas visuais, as camadas da história-dentro-da-histórica #ficaadica para quem quiser fazer em html5 😉

Mauro Alice

Faleceu anteontem em São Paulo o montador brasileiro Mauro Alice. Aos 85 anos, um dos grandes nomes do ofício, Alice tem em seu currículo filmes como “Carandiru” e “O beijo de Mulher Aranha”, ambos de Hector Babenco, entre muitos, muitos outros. A biografia do montador está disponível para download gratuito oficial aqui (na página da Imprensa Oficial/Coleção Aplauso) e aqui uma bela entrevista com ele pela Andrea Ormond. Esta blogueira presta sua humilde homenagem ao mestre…