Secretaria do Audiovisual Industrial (?)

E segue a sensação de retrocesso de pensamento e postura liderada pelo MinC de Ana de Hollanda, agora com a entrevista de sua secretária do audiovisual, Ana Paula Santana. Sobre a entrevista, deixo os comentários maiores e melhores para o Cezar Migliorin, que em seu blog fez observações muito precisas sobre boa parte do que soam, para mim, como retumbantes equívocos de pensamento, análise de conjuntura e planejamento de ação da secretária. Se nada mais, eu tenho que dizer o seguinte: à ideia do reality show com os coletivos criativos eu nem sei que nome dar, honestamente. Vêm à mente “risível”, “patética”, “ingênua”, “arrogante”, mas acho que há outras palavras igualmente boas. Parece partir do princípio – comentado pelo Cezar – de que não há, Brasil afora, um sem-número de coletivos em ação, de onde tem emergido o que é possivelmente a mais inquietante e diversa produção audiovisual brasileira hoje em dia, cuja prática não precisa – e não deve – ser conformada à estrutura industrial (da forma como a SAV parece concebe-la), menos ainda transformada em commodity comportamental num (será que eu li direito???) reality show, com os criadores sendo filmados 24hrs por dia e seu processo criativo alçado à categoria de método a ser disseminado como mais “eficiente”. (Oh, god…)

Migliorin havia escrito já um texto na Cinética, em que ele explica o que chama de “cinema pós-industrial”, e que, da forma como eu entendo, não pretende eliminar a produção industrial (necessariamente), mas fazer jus a demandas de criação e fruição que já existem, que emergiram de um cenário social, cultural, tecnológico real e urgente e que não pode ser negado, nem mesmo sob a ingênua intenção de “melhorá-lo”, alçando-o a uma categoria “mais profissional”. Como bem diz Migliorin, existe um público para esses filmes e ele continuará existindo, como continuarão os coletivos criativos, quem não os abarca são as salas e a estrutura industrial. O que está em jogo é a necessidade de que o estado potencialize essas estratégias pós-industriais já em ação (e renovação constante, por sua própria definição). Ou, nas palavras literais dele: “o papel do estado é potencializar o descontrole”.

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Numa nota mais pessoal: nesses últimos oito anos, vimos no Brasil a emergência real, descentralizada em todos os aspectos e incentivada de diversas maneiras pela gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira do MinC, de um cenário extremamente diverso de produção audiovisual. Inúmeras obras audiovisuais em algum ponto do espectro da ficção à não-ficção foram produzidas por pessoas e grupos em diversos lugares do país, com perfil sócio-cultural-econômico diverso, com finalidades, públicos e possibilidades de divulgação diferentes. Nesse cenário, surgiu, por exemplo, o coletivo Alumbramento, em Fortaleza, uma cidade que, até o surgimento desse grupo, contava com um cenário audiovisual extremamente engessado (com raras exceções, das quais destaco o trabalho do pessoal do Alpendre, sobretudo do Alexandre Veras, que de certa forma fomentou o surgimento da Alumbramento), do ponto de vista estético e de produção. Formada por jovens cuja média de idade está abaixo dos 30 anos, a Alumbramento tem produzido obras audiovisuais curtíssimas, curtas, médias e longas, da ficção à não-ficção, dentre as quais, por exemplo, o longa Estrada para Ythaca, dos irmãos Luiz e Ricardo Pretti e de Pedro Diógenes e Guto Parente. Os quatro juntos escreveram, dirigiram, produziram, atuaram, fizeram fotografia, som e montagem do filme. O longa foi premiado no Festival de Tiradentes e no Cine Ceará e rodou festivais pelo Brasil e o mundo, sendo citado, entre outros, numa ótima matéria de Pedro Butcher para a Cahier du Cinéma sobre o cinema brasileiro contemporâneo. Assim como Ythaca, há inúmeros outros filmes dos “meninos” e “meninas” (como eu gosto de chamar muitíssimo carinhosamente) da Alumbramento, que são, ao mesmo tempo, consequência e causa de uma ecologia de fruição, reflexão e produção audiovisual que não começa nem se encerra nisso que o MinC insiste em enquadrar como produção industrial. E, assim como a Alumbramento, há, Brasil afora – possivelmente pela primeira vez, de fato, vazando para fora do eixo Rio-SP – um cenário vivo e pulsante de coletivos, que geram um ruído maravilhoso tanto nas possibilidades estéticas do audiovisual que se faz no Brasil quanto demonstram, por sua própria existência, que já há novas formas de produção em curso.

A questão não é dar as costas para a produção industrial (e isso deveria ser óbvio), mas também não dá-las, sob a desculpa instituicional e paternalista da profissionalização, a esse universo que, repito (exasperadamente) já existe, já está aí, já produz, já distribui, já ressoa, já influencia, já se dobra e desdobra, já forma. A questão é, retomando o Cezar, que é papel do estado continuar potencializando esse universo e, além de, antes de tudo, não cometer a burrice e o crime de tentar cristalizá-lo (palavras minhas), também criar e institucionalizar novas maneiras de fomentá-lo (e seguir as que já surgiram, como os pontos de cultura, os editais reinventando os brasis etc.).

Mesmo não sendo diretamente ligada à área das políticas culturais – mas sendo muito diretamente ligada à área de formação profissional do audiovisual – intuo e seria capaz de apostar que colheremos por muito tempo (seja qual for a linha de ação finalmente seguida pelo MinC) os frutos dessa política cultural progressista, democrática e decentralizada levada a cabo pela gestão Gil/Juca. Digo mais: tenho a impressão de que os impactos são de ordem muito maior do que “apenas” o surgimento de uma nova geração de produtores audiovisuais como o pessoal da Alumbramento. O impacto dos pontos de cultura e de editais como o Revelando os Brasis é de uma potência e sofisticação que transcende e muito o nicho profissional audiovisual, sobretudo quando este é visto do ponto de vista exclusivamente industrial. Trata-se de formação cultural no sentido mais amplo (e democrático) do termo.

Vem-me à mente o caso de Sidnéia, habitante de uma praia ainda um tanto rústica do litoral do Ceará que, por conta desse edital para cidades de até 20 mil habitantes, fez um filme sobre si mesma – ela que é uma rara e muito particular pescadora (uma mulher numa profissão arriscada e tradicionalmente masculina). Eu até conheço a Sid, como ela é chamada lá na Redonda, mas nunca conversei com ela sobre o filme. Contudo, por todos os motivos, dá pra imaginar que tipo de processo se inicia dentro que alguém que ganha voz para se autofabular num filme – e de que forma isso repercute em sua comunidade. O impacto é imensurável e genial.

A gestão anterior do MinC, embora imperfeita (como imperfeito também o governo que a chancelou), teve o grande mérito de dar, possivelmente pela primeira vez no Brasil, atenção decente a ações desse tipo, de “pequeno porte” e, certamente, de pouca visibilidade direta. E é por isso que eu e tantos outros gostamos tanto dela e estamos inconformados com o que parecem ser indícios de uma nova política – no sentido macro do termo – que retorna às ações de “grande porte” e, certamente, alta visibilidade, em detrimento dessas todas que citei (e há muitas mais).

Tal guinada seria um retrocesso monumental. Não perceber isso é perder o bonde do Zeitgeist. Loucamente.

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Inception in Real Time

Ou: da montagem paralela às multiplas janelas, mais que linguagem, uma outra possibilidade de compreensão narrativa. Eu tinha muita vontade de ver esse filme como camadas (numa estrutura que ultrapassasse a tela) e que representasse visualmente, como camadas visuais, as camadas da história-dentro-da-histórica #ficaadica para quem quiser fazer em html5 😉

Mauro Alice

Faleceu anteontem em São Paulo o montador brasileiro Mauro Alice. Aos 85 anos, um dos grandes nomes do ofício, Alice tem em seu currículo filmes como “Carandiru” e “O beijo de Mulher Aranha”, ambos de Hector Babenco, entre muitos, muitos outros. A biografia do montador está disponível para download gratuito oficial aqui (na página da Imprensa Oficial/Coleção Aplauso) e aqui uma bela entrevista com ele pela Andrea Ormond. Esta blogueira presta sua humilde homenagem ao mestre…

Espaços cada vez mais impossíveis

Já faz quase 1 ano que meu aluno Gabriel Xavier foi “picado com o vírus” de criar “espaços impossíveis”, ou seja, espaços que não podem existir no mundo real, mas que, com boa decupagem (e no caso dos trabalhos posteriores, efeitos de finalização, mas nada muito complexo), tornam-se completamente verossímeis e muito interessantes. Bom, a disciplina acabou, mas o Gabriel continua construindo espaços cada vez mais impossíveis, adotando como marca a multiplicação dos Gabrieis – na frente e atrás das câmeras, aliás.

Usando apenas a si mesmo, câmera/tripe (este, MUITO importante), Final Cut e (suspeito) After Effects, neste vídeo, ele elimina um monte de seus próprios clones, dá um show de decupagem, interpretação e edição e me deixa muito feliz de ter plantado esta semente de puro amor à linguagem audiovisual.

Gabriel tá convidado a explicar às turmas de edição I o making of de seu último “espaço impossível”.

Livros sobre montagem

Moçadinha do Edição I: estou em processo de colocar nosso plano de curso online. Enquanto isso, aproveito para já colocar aqui alguns livros importantes sobre montagem:

The tecnique of film and video editing: history, theory , practice – Ken Dancynger. pdf

Estética da Montagem – Vincent Amiel.

The Focal Easy Guide to Final Cut Pro 6 – Rick Young. pdf

The technique of film editing – Karel Reisz e Gavin Miller (talvez o mais clássicos livros de montagem para o cinema narrativo).

(em construção)

Primeiro Cinema

Mais material de Primeiro Cinema discutido na aula de hoje:


The policemen’s little run, 1907 – filme de perseguição (chase movie) – contigüidade espacial


The gay shoe clerk, 1903 (Edwin S. Porter/Edison)- close up – olhar/coisa olhada


Le cheval emballé, 1907 (Pathé) – montagem de ações paralelas (cross-cutting)

WTF? Video Remix Project from OK Go

Está rolando há pouco mais de um mês o projeto de remix público do videoclipe da banda Ok Go. É assim: eles disponibilizam no site o download do material bruto, filmado sobre tela verde, e o público remixa da forma que bem entender e manda de volta pra eles. Não tenho certeza de que a iniciativa é inédita, acho que não, mas é bacana mesmo assim. Tem até tutorial de chromakey para o Final Cut (do Ken Stone, bom e velho de guerra) e outras plataformas!

Aos meus alunos, proponho a brincadeira como projeto extra valendo até 1 ponto 2 pontos na nota final! 😀

Amostrinha do material bruto:

e um remix:

Quem quer fazer melhor?…