Um textão sobre franquias em tempos de Stá Uós

(um post de Facebook trazido pra cá, pra não se perder com o tempo)

A maioria do que se produz, vende e consome na indústria contemporânea do entretenimento é fruto de acordos espartanos de “propriedade intelectual”: cria-se – ou, mais normalmente, compra-se – um “storyworld” e delimita-se seu copyright com direito a guardas de fronteira armados até os dentes, para impedir que a concorrência o invada. Hollywood, portanto, divide-se (literalmente!) entre quem é ~dono~ de Star Wars, ~dono~ do Homem Aranha, ~dono~ dos X-men e por aí vai.

A partir daí, o “storyworld” é expandido até quase o infinito em “sequels”, “prequels”, “spin-offs”, “remakes”, “what-ifs” e a porra toda até ficar claro (para alguns, apenas) que tão frescando com a sua cara. Isso porque é muito mais barato requentar esses “storyworlds” do que investir na criação de novos (e, mesmo assim, uns “novos” são muuuuito parecidos com outros já conhecidos, mas da concorrência). Assim, a cada novo filme, uma história 90% igual, mas com novos efeitos, figurinos e, de preferência, uma nova tecnologia pra fazer o ingresso subir 50% (ou mais). Ah, e, claro, novas versões de bonequinhos para refletir as mudanças visuais.

Quanto mais previamente conhecida a “PI”, melhor, pois aí já garante um público cativo, que, por algum motivo que talvez só um remake de Adorno e Horkheimer conseguisse explicar, parece ser capaz de comprar tudo o que for vendido sobre aquele “mundo”: TUDO, de geniais fantasias até supositório d’A Força (vire um jedi com o poder do seu fiofó).

Isso funciona para o cinema, para séries (que vão sendo enxertadas de bobagens enquanto houver público) e sobretudo para games, chegando a um ponto em que se criou uma cultura que não apenas tolera, mas espera ansiosamente pelo prolongamento da franquia (um nome que, por ser o mesmíssimo que caracteriza o modelo de negócios de coisas como o McDonald’s, já deveria deixar clara a picaretagem da coisa). Aliás, o sonho doirado da indústria do entretenimento é a total “sinergia” entre todos esses produtos, naquilo que eles chamam de “transmídia”, mas que eu prefiro chamar de picaretagem mesmo.

Para que isso funcione, um agente da cadeia de produção e consumo é fundamental: o fã. Sem pessoas que cultuam cegamente uma ~franquia~ eles não conseguem produzir séries infinitas de filmes requentados – muitas vezes com subpartes tão fakes que só dá mesmo é pra morrer de rir (como Saga Crepúsculo parte 5.1 e 5.2) – e seus respectivos acompanhamentos. Assim, pegaram a cultura geek/nerd e a elevaram a um patamar “cult” de forma completamente acrítica e, com isso, ganharam importantes parceiros de marketing que, mais do que trabalhar de graça, pagam pra trabalhar.

Então, sem querer melar a histeria de vocês – ou querendo um pouco, hahaha – a “chata” que já quitou todas as prestações do puxadinho dentro de mim e é capaz de farejar servidão travestida de escolha melhor do que tubarão farejando sangue n’água vem por meio desta relembrar Deleuze, quando esse francês pentelho e maravilhoso nos pede para ficar atentos ao que somos levados a servir (eu, inclusive). Porque não é que não haja potência no exercício do “fandom” (que, em português, se traduz sintomaticamente como “fanatismo”). É que a fronteira entre qualquer potência e a imbecilidade é tênue e movediça. Que a força de ser menos rebanho esteja conosco (and may the bashing begin – supondo que alguém sobreviveu até aqui, hahaha).

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Cultura da Convergência

Algumas coisas sobre nossas aulas sobre cultura da convergência:

A vida em cena

E um textinho de hoje para complementar o da Ilana: O Facebook está contra a alegria, por Evgeny Morozov (pra continuarmos na próxima aula a reflexão sobre a construção da subjetividade alterdirigida nas redes sociais e algumas de suas contradições. Ou, a pergunta: você é o que você posta?)

Tá aqui o texto da Ilana Feldman: A vida em cena: vida-produto, vida-lazer, vida-trabalho, vida-performance, que fala, entre outras coisas, do filme Pacific, que vimos em sala hoje.

(Para quem quiser um pdf mais “legível” do texto da Ilana, tem aqui:  A vida em cena)

Texto do crítico Carlos Alberto Mattos, A classe média vai ao paraíso; crítica do Fábio Andrade, na Cinética; comentários de Jean-Claude Bernardet sobre o filme, troca de mensagens com o diretor Marcelo Pedroso.

Cultura da Convergência

Algumas coisas sobre a aula de hoje:

Exercício: analisar, sob as 4 características propostar por Mittel, um capítulo de Lost (ou, opcionalmente, outra série parecida – cada caso a ser discutido com a prof. Um trabalho por blog!)

Atendendo a pedidos, as características de Mittel:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A vida em cena

Para discutirmos na próxima aula & SER COMENTADO NOS BLOGS, o texto da Ilana Feldman: A vida em cena: vida-produto, vida-lazer, vida-trabalho, vida-performance. Gostaria que vocês tentasse aprofundar a relação entre o texto, o filme Pacific, exibido em sala de aula e a construção da identidade de vocês a partir das redes sociais, videogames online e a vida presencial. Também o texto do Lucas, Síndrome de Realidade (para próxima aula+blog).

(Para quem quiser um pdf mais “legível” do texto da Ilana, tem aqui:  A vida em cena)

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Livro do Lucas, Microcinemas, ao qual ele se referiu hoje em aula.

Texto do crítico Carlos Alberto Mattos, A classe média vai ao paraíso; crítica do Fábio Andrade, na Cinética; comentários de Jean-Claude Bernardet sobre o filme, troca de mensagens com o diretor Marcelo Pedroso.

Googlar nos torna estúpidos?

Este post é especial para a turma do 4º semestre, porque trata justamente de um artigo sobre assunto que mencionei e que comentamos em sala de aula: os efeitos que o Google e seu sistema de busca estão gerando em nossa forma de pensar. Apesar do título, o artigo não diz nem que estamos, nem que não estamos ficando estúpidos, faz apenas um inteligente percurso sobre como alguns inventos – da escrita ao relógio de pulso – afetaram nossa forma de agir e até mesmo de pensar (não por acaso, exatamente o assunto da nossa aula passada) e, claro, a partir daí, especula acerca dos males e benesses advindas da internet.

Alguns pensamentos me ocorreram durante a leitura. Uma das coisas que me ocorreu: que gente como eu (quem diria!), que ainda viveu tempo suficiente sob esse regime de leitura detida proporcionada pelos livros e que ainda consegue exercê-la com algum sucesso, sob certas condições, talvez vire um tipo considerado tão erudito quanto são para nós pessoas educadas há algumas décadas, capazes de ler partitura e tocar, não porque tivessem dom musical particular, mas porque esse tipo de formação era praxe e, certamente, essa educação musical forma sua maneira de pensar.

Vocês, criaturinhas meio aliche, meio margherita – ou seja, que ainda viveram um mundo pré-internet – ainda têm chance de mergulhar o suficiente na leitura de livros para não perderem completamente essa habilidade de atenção e raciocício duradouro e profundo proporcionados exclusivamente pela leitura. Aliás, ter essa capacidade reflexiva de aproveitar as novas tecnologias, mas tentar lutar contra os vícios que ela impõe só tente a ser benéfico para todos (e eu nem estou de fato entrando nos meandros nefastos do “capitalismo cognitivo”, uma historinha ainda mais profunda).

Por outro lado, como também aponta o artigo, não adianta muito ter medo e ser apocalíptico sobre as mudanças tecnológicas. Inclusive porque, se a internet proporciona esse “quicar” entre trilhas de raciocínio diversas, os games, por exemplo, nos pedem longos períodos de concentração, que pode não ser o mesmo tipo de concentração que a leitura requer, mas, por tudo que posso perceber, como jogadora e pesquisadora, aponta para outras habilidades, qualidades e limitações do pensamento, da criatividade, da percepção.

Bom, mas este link é para que comecemos o semestre criando diálogos a partir deste blog e, num futuro próximo, nos blogs das equipes (aliás, eu tive algumas boas idéias sobre os seminários deste semestre, huahuahua…)

PS: enquanto lia o texto, eu: parei para postá-lo no facebook – fui ao perfil de um amigo parabenizá-lo pelo aniversário – vi o trailer de “Upception”, um fake parodiando “Inception” a partir de “Up” (ou seria o contrário?) – abri esta página para escrever este post – comi uma fatia de bolo de cenoura e tomei um gole de café. O nome disso é “atenção distribuída”, mas a gente volta a este tópico outra hora.

Twitter em sala de aula

(via @digital_cultura)

Estou muito inclinada a experimentar isso durante os seminários da disciplina “Multimídia e Hipermídia”, não apenas para ver se ajuda as discussões, como pela dinâmica em si (levantando a questão, pertinente à matéria, de como uma ferramenta ‘virtual’ pode repercutir na vivência presencial em tempo real). O assunto me lembra a dinâmica da #intercom2009, sobretudo no #gpciber: com três mesas em andamento, várias pessoas que não puderam ir a Curitiba e um bando de fanáticos profissionais pelas redes sociais, e graças ao wifi poderoso e aberto disponibilizado pela Positivo, o encontro do Grupo de Pesquisa em Cibercultura (entre vários outros GPs da Intercom) foi tuitado freneticamente e em tempo real. Assim, pessoas que estavam noutras salas podiam acompanhar minimamente o que estava sendo exposto e até gente que não havia ido a Curitiba pôde levantar perguntas, que o mediador-tuiteiro se encarregava de levar aos palestrantes. O caso foi tão emblemático que, às 16h do último dia de encontro (se não me engano), foi organizada via twitter uma flash mob, na qual todos os tuiteiros se levantavam silenciosamente de suas cadeiras, onde quer que estivessem, dando visibilidade presencial à rede virtual que havia se formado ali. Foi gênio.

Aqui, é possível antecipar os problemas para a experiência: 1) ausência de rede sem fio de qualidade (acho que nossa instituição tem), 2) ausência de computadores para se conectar (poucos andam com seus notebooks, celulares 3G ainda são raros, banda larga de celular tem preço proibitivo), 3) tenho mêda de permitir aos meus alunos que assistam aula conectados à web — é competição desleal!!!

Pirataria?

Notinha da Wired sobre o que todos nós — pobres gastadores com cultura e eventuais downloadadores daquilo que simplesmente não dá/vale a pena comprar — já sabíamos: se a tal “pirataria” faz tão mal ao business, como explicar o lucro ASTRONÔMICO de, por exemplo, Cavaleiro das Trevas em seu primeiro fim de semana: US$155.3 MILHÕES???

Mais um forte indício de que, entre outras coisas, os lamentos da indústria são mesmo apenas… ganância.