Dicas de mudança: não contrate a Executiva Logística

Quer uma dica de mudança? Quer a melhor dica de como fazer uma mudança bem feita? Quer fazer uma mudança perfeita? Mudança residencial interestadual?

A primeira dica é: não contratem a empresa de mudança Executiva Logística, localizada em Salvador, rua Artur Santos, 06, Mares. NUNCA. JAMAIS. SOB NENHUMA HIPÓTESE.

Como consta no post abaixo, tive a infelicidade de contratar essa empresa para realizar minha mudança de São Paulo para Salvador, depois de falar com alguns (supostos) clientes satisfeitos. Escolhi essa empresa por ser de Salvador e, se fosse necessário, ter um depósito na cidade, que poderia ficar com minhas coisas enquanto eu procurava apartamento. Prometeram a entrega das coisas – o que consta em contrato – de “8 a 15 dias” da data de coleta, que foi dia 27/11/2015. Assim, minhas coisas deveriam ter chegado até dia 12/12 à cidade de Salvador. No dia 11/12, informei o sr. Carlos Salles, diretor comercial da empresa, o endereço para que fosse feita a entrega. Ele alegou que minhas coisas chegariam a Salvador no dia 19/12/2015. Foi preciso que eu mesma ligasse no dia 18 para descobrir que minhas coisas não chegariam nessa data – que já era uma semana depois do previsto em contrato. Como eu viajaria no dia 21/12, ele prometeu que minhas coisas, ao chegarem na semana seguinte, ficariam no depósito da empresa até minha volta, em janeiro. Combinei então a mudança para 04/01, mais uma data que o sr. Carlos me confirmou. Novamente, foi preciso que eu ligasse para ser novamente informada de que minhas coisas não haviam chegado e ouvir uma nova promessa de que chegariam até dia 8. Não chegaram. Prometeram para 11/12. Não chegaram. Prometeram, alegando que o caminhão já estava em Lençois, BA, para 13/12 e, ainda outra vez, foi preciso que eu ligasse para descobrir que também não vão chegar amanhã, mas que “devem chegar entre 14 e 15”. Trata-se, hoje, dia 12 de janeiro de 2016, de exatos UM MÊS DE ATRASO!!! 

Estou em Salvador desde o dia 30/11/2015, hospedada – ou talvez eu deva dizer morando – na casa de amigos extremamente generosos. Estou há um mês e meio vivendo com o que trouxe em uma mala, já paguei o segundo mês de aluguel no apartamento que corri para conseguir aqui e a empresa Executiva Logística não consegue cumprir o serviço que me vendeu por mais de R$4000: trazer minhas coisas de São Paulo para Salvador.

Já fiz reclamação no ReclameAqui, já contratei uma advogada e, hoje, percebo que deveria ter ido direto à polícia, fazer um B.O. por furto, e ao Procon, para entrar com uma reclamação. Farei tudo isso amanhã e, certamente, farei o que for possível para processar essa empresa, que, além de vender um serviço que sabe não poder cumprir, se limita a engabelar a cliente com prazos fictícios e não oferece NADA para redimir seus incontáveis erros.

Escrevo estes posts na esperanças de que, no futuro, quando alguém se deparar com a oferta de serviços da empresa Executiva Logística, seja dissuadido de contrata-la por conta de meu testemunho. Estou falando muito sério: a empresa Executiva Logística é uma ROUBADA COLOSSAL. NÃO CONTRATEM ESSA EMPRESA!!!

Abaixo, alguns prints que comprovam as inúmeras promessas absolutamente irreais que o sr. Carlos Salles me fez, ao longo de nossa lamentável negociação:

carlos_5dez

 

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Não contratem a Executiva Logística

FUJAM DA EMPRESA EXECUTIVA LOGÍSTICA!!!

Contratei os serviços da empresa de mudanças Executiva Logística, http://www.executivalogistica.com.br/ sediada na rua Arthur Santos, 06, em Salvador, para fazer minha mudança de São Paulo para Salvador. O sr. Carlos foi muito gentil e atencioso e GARANTIU que minhas coisas seriam entregues em Salvador em até 15 dias após a coleta em São Paulo – coleta essa que foi feita por outra empresa, a Gil Mudanças e Transportes. Combinei também com ele que, caso eu não tivesse achado apartamento nesses 15 dias, minhas coisas ficariam no depósito da empresa EM SALVADOR por mais tempo. Foi única e exclusivamente por essa possibilidade, de ter as coisas EM SALVADOR em 15 dias, que contratei a Executiva Logística e não outras empresas que não tinha depósito na cidade.

Minhas coisas foram retiradas em São Paulo dia 27/11/2015 e, portanto, deveriam ter chegado a Salvador até dia 12/12/2015. Não chegaram. Ao entrar em contato com a empresa, ele, sem reconhecer o erro, disseram que minhas coisas chegariam dia 19/12. No dia 18, liguei para a empresa e falei com o sr. Carlos, para ouvir mais desculpas esfarrapadas e a garantia de que minhas coisas chegariam até o final do ano de 2015 e ficariam guardadas em seu depósito, em Salvador, para que minha mudança fosse realizada impreterivelmente hoje, dia 4/01/2016, o que foi confirmado pelo sr. Carlos via email.

Bem, hoje, já esperando o pior, liguei para a empresa e fui informada de que minhas coisas NÃO SAIRAM DE SÃO PAULO. Me disseram que minhas coisas “devem chegar” a Salvador “quinta ou sexta”, informação na qual obviamente não posso confiar, pois a empresa deliberadamente engana seus clientes com datas que não pretendem cumprir, para adiar a tomada de medidas legais.

Estou há mais de um mês em Salvador, morando de favor com amigos, porque essa empresa vendeu – por 4600 reais!!! – um serviço que não podia cumprir. Já comecei a trabalhar e não tenho onde morar, porque essa empresa não cumpriu o básico do que prometeram.

Minha segunda reclamação no ReclameAqui.com

Meu sentimento não é “nervosa”. É absolutamente revoltada e indignada.

Já fiz uma reclamação aqui sobre este caso e sou obrigada a fazer outra. NUNCA tive uma experiência como a que estou tendo com a Executiva Logística (http://www.executivalogistica.com.br/ ) e espero JAMAIS TER NOVAMENTE.

Minha mudança foi coletada no dia 27/11, em São Paulo, para ser entregue em “8 a 15 dias” em Salvador, como consta em contrato. Não foi entregue no que seriam os 15 dias, dia 12/12. Foi prometida pra dia 19/12. Também não foi entregue. Foi prometida para até o final de 2015. Não foi entregue. Foi prometida para 04/01. Não foi entregue. Foi prometida para 8/01. Não foi entregue. Foi prometida para 11/1. Não foi entregue. Foi prometida para 13/01 e acabei de saber que NÃO VAI SER ENTREGUE. “Deve ser entregue entre quinta e sexta-feira”. A empresa conseguiu atrasar minha mudança EM UM MÊS e toda vez que EU ligo – porque preciso EU ligar pro diretor, o sr. Carlos Salles, ele descumpre os prazos e SEQUER SE DA O TRABALHO DE AVISAR – ele me dá uma desculpa e nova previsão DESONESTA. Boa parte dessas previsões estão no meu email, para comprovar que esse senhor promete e não cumpre.

Estou morando em Salvador HÁ MAIS DE UM MÊS, de favor, na casa de amigos, trabalhando sem acesso aos meus livros e objetos pessoais, vivendo com o que veio numa mala, já paguei o segundo mês de aluguel do apartamento, que segue vazio, pois não posso me mudar, porque a Executiva Logística simplesmente vendeu um serviço que não é capaz de entregar.

Depois desse tempo todo e diante da sétima previsão não cumprida por essa empresa, comecei a exigir que paguem meu hotel e ELES SE RECUSARAM!!!

Tenho até medo de imaginar o estado em que minhas coisas podem chegar… SE CHEGAREM!!!

Parece que a coisa chegou a um ponto em que terei que ir à polícia, se quiser recuperar minha mudança.

Um textão sobre franquias em tempos de Stá Uós

(um post de Facebook trazido pra cá, pra não se perder com o tempo)

A maioria do que se produz, vende e consome na indústria contemporânea do entretenimento é fruto de acordos espartanos de “propriedade intelectual”: cria-se – ou, mais normalmente, compra-se – um “storyworld” e delimita-se seu copyright com direito a guardas de fronteira armados até os dentes, para impedir que a concorrência o invada. Hollywood, portanto, divide-se (literalmente!) entre quem é ~dono~ de Star Wars, ~dono~ do Homem Aranha, ~dono~ dos X-men e por aí vai.

A partir daí, o “storyworld” é expandido até quase o infinito em “sequels”, “prequels”, “spin-offs”, “remakes”, “what-ifs” e a porra toda até ficar claro (para alguns, apenas) que tão frescando com a sua cara. Isso porque é muito mais barato requentar esses “storyworlds” do que investir na criação de novos (e, mesmo assim, uns “novos” são muuuuito parecidos com outros já conhecidos, mas da concorrência). Assim, a cada novo filme, uma história 90% igual, mas com novos efeitos, figurinos e, de preferência, uma nova tecnologia pra fazer o ingresso subir 50% (ou mais). Ah, e, claro, novas versões de bonequinhos para refletir as mudanças visuais.

Quanto mais previamente conhecida a “PI”, melhor, pois aí já garante um público cativo, que, por algum motivo que talvez só um remake de Adorno e Horkheimer conseguisse explicar, parece ser capaz de comprar tudo o que for vendido sobre aquele “mundo”: TUDO, de geniais fantasias até supositório d’A Força (vire um jedi com o poder do seu fiofó).

Isso funciona para o cinema, para séries (que vão sendo enxertadas de bobagens enquanto houver público) e sobretudo para games, chegando a um ponto em que se criou uma cultura que não apenas tolera, mas espera ansiosamente pelo prolongamento da franquia (um nome que, por ser o mesmíssimo que caracteriza o modelo de negócios de coisas como o McDonald’s, já deveria deixar clara a picaretagem da coisa). Aliás, o sonho doirado da indústria do entretenimento é a total “sinergia” entre todos esses produtos, naquilo que eles chamam de “transmídia”, mas que eu prefiro chamar de picaretagem mesmo.

Para que isso funcione, um agente da cadeia de produção e consumo é fundamental: o fã. Sem pessoas que cultuam cegamente uma ~franquia~ eles não conseguem produzir séries infinitas de filmes requentados – muitas vezes com subpartes tão fakes que só dá mesmo é pra morrer de rir (como Saga Crepúsculo parte 5.1 e 5.2) – e seus respectivos acompanhamentos. Assim, pegaram a cultura geek/nerd e a elevaram a um patamar “cult” de forma completamente acrítica e, com isso, ganharam importantes parceiros de marketing que, mais do que trabalhar de graça, pagam pra trabalhar.

Então, sem querer melar a histeria de vocês – ou querendo um pouco, hahaha – a “chata” que já quitou todas as prestações do puxadinho dentro de mim e é capaz de farejar servidão travestida de escolha melhor do que tubarão farejando sangue n’água vem por meio desta relembrar Deleuze, quando esse francês pentelho e maravilhoso nos pede para ficar atentos ao que somos levados a servir (eu, inclusive). Porque não é que não haja potência no exercício do “fandom” (que, em português, se traduz sintomaticamente como “fanatismo”). É que a fronteira entre qualquer potência e a imbecilidade é tênue e movediça. Que a força de ser menos rebanho esteja conosco (and may the bashing begin – supondo que alguém sobreviveu até aqui, hahaha).

Conjunturas, poemas e o velho ódio de classe

Blog da Boitempo

mauro iasi brecht[Ilustração de Ricardo Bezerra, para a peça “O patrão cordial”, da Companhia do Latão]

Por Mauro Luis Iasi.

Um vídeo com uma análise de conjuntura realizada na abertura do Congresso da CSP-Conlutas, em junho deste ano, que terminava com um poema de Bertolt Brecht (“Perguntas a um bom homem”), causou frisson nas hostes da extrema-direita.

Não foi a análise de conjuntura em si, coisa mais complexa e que exige certa cultura política, mas o poema citado ao final que despertou a ira dos conservadores, atentos ao espaço virtual da luta de classes.

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Red stack attack! Algoritmos, capital e a automação do comum

(Tradução minha, autorizada pela autora. Original: https://www.academia.edu/8430149/Red_Stack_Attack_Algorithms_Capital_and_the_Automation_of_the_Common)

Red stack attack! Algoritmos, capital e a automação do comum

Tiziana Terranova

Algoritmos, capital e automação

Olhando para os algoritmos sob a perspectiva da construção de uma nova racionalidade política em torno do conceito de “comum” significa ocupar-se das maneiras como os algoritmos estão profundamente implicados nas mudanças profundas dos processos de automação. A automação é descrita por Marx como um processo de absorção pela máquina das “forças produtivas gerais do cérebro social, tais como o saber e as habilidades” (Marx 1973, 694), as quais, assim, aparecem como um atributo do capital, em vez de produtor do trabalho social. Observando a história da implicação entre capital e tecnologia, fica clara a forma como a automação evoluir para além do modelo termodinâmico das primeiras linhas de montagem, rumo ao modelo das redes eletro-computacioniais do capitalismo contemporâneo. É possível, portanto, compreender os algoritmos como parte de uma linha genealógica que, como coloca Marx no “Fragmento sobres as máquinas”, começando com a adoção da tecnologia pelo capitalismo como capital fixo, empurra-a através de inúmeras metamorfoses “cuja das quais a última é a máquina ou, melhor dizendo, um sistema automático da maquinaria (…) posto em movimento por um autômato, por uma força motriz que se movimenta por si mesma” (Marx). O autômato industrial era claramente termodinâmico e deu lugar a um sistema “consistindo em numerosos órgãos mecânicos e intelectuais, de modo que os próprios trabalhadores são definidos somente como membros conscientes dele” (Marx). O autômato digital, contudo, é eletro-computacional, coloca a “alma para trabalhar” e envolve primariamente o sistema nervoso e o cérebro, abrangendo possibilidades de virtualidade, simulação, abstração, feedback e processos autônomos” (Fueller, 2008: 4; Berardi). O autômato digital se desdobra em redes que consistem em conexões eletrônicas e nervosas, de modo que os próprios usuários são colocados como relays semi-automáticos de um fluxo incessante de informação. É nessa assemblage maior, portanto, que os algoritmos precisam ser localizados quando discutimos os novos modos de automação.

Citando um livro didático de ciência da computação, Andrew Goffey descreve o algoritmo como “o conceito unificador para todas as atividades nas quais se envolvem os cientistas da computação… e a entidade fundamental com as quais estes operam” (Goffey, 2008: 15). Um algoritmo pode ser provisoriamente definido como a “descrição do método pelo qual uma tarefa pode ser realizada…” através de sequências de passos ou instruções, conjuntos de passos ordenados, que operam sobre dados e estruturas computacionais. Dessa forma, um algoritmo é uma abstração, “e tem uma existência independente daquilo que cientistas da computação gostam de chamar de “detalhes de implementação”, ou seja, sua materialização em uma linguagem de programação particular para uma arquitetura maquínica/computacional” “Goffey, 2008: 15). Podem estender-se em complexidade desde o mais simples conjunto de regras capazes de serem descritas em linguagem natural (como aquelas usadas para gerar padrões coordenados de movimento em ‘smart mobs’) às formulas matemáticas mais complexas, envolvendo todo tipo de variável (como o famoso algoritmo Monte Carlo, usado para resolver problemas de física nuclear e posteriormente também aplicado para o mercado financeiro e, hoje, ao estudo de processos tecnológicos não-lineares de difusão). Ao mesmo tempo, para funcionar, algoritmos precisam fazer parte de agenciamentos que incluem hardware, dados, estruturas de dados (como listas, databases, memoria etc), comportamentos e ações dos corpos. Para que o algoritmo se torne software social, de fato, “ele precisa obter seu poder como artefato e processo social ou cultural através de uma acomodação cada vez maior aos comportamentos e corpos que acontecem e estão do lado de fora” (Fuller, 2008: 5).

Além do mais, uma vez que algoritmos contemporâneos tem sido mais e mais expostos a conjuntos de dados cada vez maiores (e, em geral, a uma entropia crescente no fluxo de dados, também conhecida como Big Data), ele têm também se tornado, de acordo com Luciana Parisi, algo além de meras sequências de instruções a serem seguidas: um volume infinito de informação interfere e reprograma procedimentos algorítmicos… e os dados produzem regras estranhas” (Parisi 2013, X). Fica claro a partir deste resumo que os algoritmos não são um conjunto homogêneo de técnicas ou que garantem “a execução infalível e automatizada da ordem e do controle” (Parisi, 2013, IX).

Do ponto de vista do capitalismo, contudo, algoritmos são sobretudo uma forma de “capital fixo”, ou seja, apenas um meio de produção. Eles codificam uma certa quantidade de saber social (abstraído daquele elaborado por matemáticos, programadores, mas também pela atividade dos usuários), mas não tem valor em si. Na atual economia, eles tem valor apenas enquanto possibilitarem a conversão desse saber em valor de troca (monetização) e sua (exponencialmente crescente) acumulação (o quase-monopólios titânicos da Internet social). Enquanto constituem capital fixo, algoritmos como o Page Rank, do Google e o Edgerank, do Facebook, se mostram “como um pressuposto diante do qual o poder valorizador da capacidade de trabalho individual desaparece como algo infinitamente pequeno” (Marx) e é por isso que demandas por retribuição individual pelo “trabalho grátis” dos usuários não cabem. Fica claro que, para Marx, o que precisa ser compensado não é o trabalho individual do usuário, mas um poder muito maior de cooperação social assim desencadeado e que essa compensação implica uma transformação profunda sobre a posse que esta relação social a que chamamos economia capitalista tem sobre a sociedade.

Do ponto de vista do capital, portanto, algoritmos são apenas capital fixo, ou seja, meios de produção com a finalidade de conseguir retorno econômico, mas isso, como no caso de todas as técnicas e tecnologias, é tudo o que são. Marx explicitamente afirma que, mesmo quando o capital apropria a tecnologia como a forma mais eficiente de subsunção do trabalho, isso não é tudo o que se pode dizer sobre ela. Sua existência como maquinaria, ele insiste, não é “idêntica à sua existência como capital e, assim, não se segue de maneira nenhuma que a subsunção à relação social do capital seja a melhor e mais adequada relação social de produção para a aplicação da maquinaria” (Marx). É essencial lembrar que o valor instrumental que os algoritmos têm para o capital não exaurem o “valor” da tecnologia em geral ou de algoritmos em particular, ou seja, sua capacidade de expressão não apenas “valor de uso”, nas palavras de Marx, mas também valores estéticos, existenciais, sociais e éticos. Não foi esse embate entre a necessidade do capital de reduzir o desenvolvimento de software ao valor de troca, marginalizando, assim, os valores estéticos e éticos da criação, o que empurrou Richard Stallman e incontáveis hackers e engenheiros para o movimento do Software Livre? O entusiasmo que anima os encontros e espaços hackers não vem da energia liberada do constrangimento de ter que “trabalhar” para uma empresa para se manter fiel à sua própria estética e ética da codificação?

Ao contrário de algumas variantes do marxismo, que tendem a identificar a tecnologia completamente com “trabalho morto”, “capital fixo” ou “racionalidade instrumental” e, portanto, com controle e captura, é importante lembrar o quanto, para Marx, a evolução da maquinaria também indexa um nível de desenvolvimento produtivo que é desencadeado, mas nunca totalmente contido pela economia capitalista. O que interessa a Marx (e o que torna seu trabalho ainda relevante àqueles que buscam um modo de existência pós-capitalista) é a maneira como ele afirma que a tendência do capital de investir na tecnologia para automatizar e, portanto, reduzir o custo do trabalho ao mínimo possível potencialmente liberta um “excedente” de tempo e energia (trabalho) ou um excedente de capacidade produtiva com relação ao básico, importante e necessário trabalho de reprodução (uma economia global, por exemplo, deveria produzir antes de tudo riqueza suficiente para alimentar, vestir, curar e dar abrigo a todos os membros da população planetária). Contudo, o que caracteriza uma economia capitalista é o fato de que esse excedente de tempo e energia não é simplesmente lançado, mas deve ser constantemente reabsorvido no ciclo de produção de valor de troca, que leva à crescente acumulação de riqueza pelos poucos (o capitalista coletivo) às custas dos muitos (as multidões).

A automação, portanto, quando vista sob o ponto de vista do capital, deve sempre ser equilibrada com novas maneiras de controle, ou seja, deve absorver e exaurir o tempo e a energia por ela liberados. Deve necessariamente produzir pobreza e stress onde deveria haver riqueza e lazer. Deve fazer do trabalho direto a medida de valor, mesmo quando estiver claro que são a ciência, a tecnologia e a cooperação social o que constitui a fonte de produção de riqueza. Leva inevitavelmente, portanto, à destruição periódica e generalizada da acumulação de riquezas, na forma de esgotamento psíquico ou da destruição física da riqueza criada, e à catástrofe ambiental. Cria fome onde deveria haver saciedade, coloca lado a lado o banco de alimentação e a opulência dos super-ricos. É por isso que a noção de um modo de existência pós-capitalista precisa se tornar verossímil, ou seja, precisa se tornar o que Maurizio Lazzarato descreveu como um foco autônomo e duradouro de subjetivação. O que um comunismo pós-capitalista pode assim almejar é, não apenas a melhor distribuição as riquezas, comparada à que temos hoje, que é insustentável, mas também a reinvindicação do “tempo livre”, ou seja, de que esse tempo e energia liberados pelo trabalho [automatizado] sejam empregados no desenvolvimento e na problematização da noção mesma do que é “necessário”.

A história do capitalismo mostrou que a automação em si não reduziu nem a quantidade, nem a intensidade do trabalho requerida pelos patrões e capitalistas. Ao contrário, na medida em que a tecnologia é apenas um meio de produção para o capital, nos lugares em que pôde usar outros meios, ele não inovou. Por exemplo, não parece que as tecnologias de automação industrial usadas nas fabricas tenha vivido mudanças significativas recentemente. A maior parte do trabalho industrial ainda hoje é essencialmente manual, automatizado apenas no sentido de estar ligado à velocidade das redes eletrônicas de prototipagem, marketing e distribuição e é economicamente sustentável apenas através de meios políticos, ou seja, através da exploração das diferenças geopolíticas e econômicas (arbitragem) numa escala global e pelo controle de fluxos migratórios através de novas tecnologias de fronteira. O estado das coisas na maior parte das indústrias hoje em dia é de exploração intensificada, o qual produz um modo empobrecido de produção de massa e de consumo, que é danoso para o corpo, a subjetividade, as relações sociais e o meio ambiente. Como Marx colocou, o tempo excedente liberado pela automação deveria permitir uma mudança na definição mesma do que é ‘humano’, de modo que à nova subjetividade seja permitido voltar ao trabalho requerido para redefinir o que é necessário e o que é preciso. Portanto, não é simplesmente o caso de se defender um “retorno” a tempos mais simples, mas, ao contrário, de reconhecer que plantar alimentos e alimentar populações, construir abrigos e moradias adequados, ensinar e pesquisar, cuidar das crianças, dos doentes e dos velhos requer a mobilização de invenção e cooperação social. O processo todo transforma-se, assim, da produção dos muitos para os poucos, impregnado de pobreza e stress, num processo em que os muitos redefinem o sentido do que é necessário e valioso, enquanto inventam maneiras de consegui-lo. Isso corresponde, em certo sentido, à noção de ‘commonfare’, da forma como foi recentemente elaborada por Andrea Fumagalli e Carlo Vercellone, implicado, nas palavras deste último, “a socialização dos investimentos, do dinheiro e da questão de modos de gerenciamento e organização, que permitam uma reapropriação autêntica e democrática das instituições do Welfare (…) e da reconstrução ecológica de nosso sistema de produção” (Vercellone, no prelo, Fumagalli, 2014). Devemos perguntar, portanto, não apenas como a automação algorítmica opera hoje (sobretudo em termos de controle e monetização, alimentando a economia do debito), mas também que tipo de tempo e energia ela subsome e como elas podem ser colocadas para trabalhar em favor de agenciamentos sociais e políticos diversos – autônomos, não subsumidos ou sujeitos à pulsão capitalista pela acumulação e a exploração.

Red Stack: dinheiro virtual, redes sociais e bio-hipermídia

Numa intervenção recente, o teórico de mídias digitais e cientista político Benjamin H. Bratton afirmou que estamos testemunhando a emergência de um novo nomos na terra, na qual velhas divisões geopolíticas atreladas à soberanias territoriais se intersectam ao novo nomos da Internet e a novas formas de soberania que se estendem no espaço eletrônico (Bratton, 2012). Esse novo nomos heterogêneo envolve a sobreposição de governos nacionais (China, EUA, Uniao Europeia, Brasil, Egito e afins), organismos transnacionais (o FIM, a OMC, os bancos europeus e ONGs de diversos tipos) e corporações como Google, Facebook, Apple, Amazon etc, produzindo padrões diversos de acomodação mútua, marcados por momentos de conflito. A partir da estrutura organizacional das redes de computadores “ou do modelo OSI, no qual o stack TCP/IP e a própria internet se baseiam diretamente”, Bratton criou o conceito e/ou protótipo da “pilha” (stack) para definir a característica do potencialmente novo nomos da terra, ligando tecnologia, natureza e o humano (Bratton, 2012). A pilha/stack suporta e modula um tipo de ‘cibernetica social’ capaz de compor “tanto equilíbrio quanto emergência”. Como “megaestrutura”, a pilha/stack implica a “confluência de um sistema de sistemas interoperáveis … (confluence of interoperable standards-based complex material-information system of systems), organizados a partir de uma seção vertical de um modelo topográfico de camadas e procolos… composto igualmente de camadas sociais, humanas e “analógicas” (fontes de energia ctônica, gestos, afetos, usuários-actantes, interfaces, cidades e ruas, cômodos e apartamentos, invólucros orgânicos e inorgânicos) e camadas informacionais, não-humanas, computacionais e digitais (múltiplos cabos de fibra óptica, datacenters, databases, protocolos e padrões de dados, redes de escala urbana, sistemas integrados, tabelas de endereçamento universais)” (Bratton, 2012).

Nesta seção, a partir do protótipo político de Bratton, gostaria de propor o conceito de “Red Stack” (“pilha vermelha”???), ou seja, um novo nomos para o comum pós-capitalista. Materializar o “red stack” implica envolvimento com (pelo menos) três níveis de inovação sócio-técnica: dinheiro virtual, redes sociais e bio-hipermídia. Deve-se compreender que esses três níveis, conquanto “empilhados”, interagem transversalmente e de forma não linear. Constituem uma forma possível de pensar a infraestrutura de autonomização que liga tecnologia e subjetivação.

Dinheiro virtual

A economia contemporânea, como afirmam Christian Marazzi e outros, é fundada numa forma de dinheiro transformado numa série de signos, sem nenhum referente fixo no qual se ancorar (como o ouro), dependente explicitamente da automação computacional de modelos de simulação, telas com exibição automatizada de dados (índices, gráficos etc) e transações algorítmicas/“algo-trading” (transações bot-to-bot) como seu modo emergente de automação (Marazzi). Como também coloca Toni Negri, “o dinheiro, hoje – como maquina abstrata – adotou a função peculiar de medida suprema dos valores extraídos da sociedade na subsunção real desta sob o capital” (Negri, 2014b). Uma vez que a propriedade e o controle de dinheiro-capital (diferente, como nos lembra Maurizio Lazzarato, do dinheiro-salário por sua capacidade de ser usado não apenas como meio de troca, mas como meio de investimento, empoderando certos futuros em lugar de outros) são cruciais para a manutenção das população sob à atual relação de poder, como podemos transformar dinheiro financeiro em dinheiro do comum? Um experimento como o Bitcoin demonstra que, de certa forma, “o tabu sobre o dinheiro foi quebrado” (Jaromil 2013) e que, para além dos limites dessa experiência, bifurcações já estão se desenvolvendo em direções diversas. Que tipo de relações podem ser estabelecidas entre algoritmos de criação monetária e uma “prática constituinte que afirma outros critérios para a medição de riqueza, valorizando necessidades coletivas novas e velhas, fora da lógica financeira?” (Lucarelli 2014). As atuais tentativas de criação de novos tipos de criptomoedas devem ser julgadas, avaliadas e repensadas a partir de uma questão simples colocada por Andrea Fumagalli: a moeda criada está limitada a ser um meio de troca ou pode também afetar todo o ciclo de criação monetária – das finanças à troca? (Fumagalli, 2014). Encoraja a especulação e o acúmulo ou promove o investimento em projetos pós-capitalistas e facilita a libertação da exploração, a autonomia, a organização etc? Está cada vez mais claro que os algoritmos são uma parte essencial do processo de criação da moeda do comum, mas que eles também têm uma política (quais são as politicas de gênero da “mineração” individual de Bitcoins, por exemplo, ou do complexo saber tecnológico e da maquinaria implícita nessa “mineração”?).

Além do mais, o ímpeto da completa automação da produção monetária em busca de se escapar às falácias dos fatores subjetivos e das relações sociais pode causar a volta dessas relações na forma de negociação especulativa. Da mesma forma que o capital financeiro está ligado a um certo tipo de subjetividade (o predador financeiro narrado por Hollywood), uma forma autônoma de dinheiro deve ao mesmo tempo estar fincada e produzir um novo tipo de subjetividade, que não esteja não limitada ao universo hacker em si, mas orientada não à monetização e ao acúmulo e sim ao empoderamento da cooperação social. Outras questões que devem pautar o design da criação de uma moeda do comum são: é possível basear-se na atual financialização da Internet por corporações como o Google (e seus programas Adsense/Adword) para subtrair dinheiro do circuito de acumulação capitalista e transforma-lo em dinheiro capaz de financiar novas formas de “commonfare” (educação, pesquisa, saúde, meio ambiente etc.)? Que lições devem ser aprendidas a partir dos modelos de crowfunding e suas limitações no que diz respeito a novas formas de se financiar projetos autônomos de cooperação social? Como podemos aperfeiçoar e estender experimentos como aqueles levados adiante pelo movimento InterOccupy durante o furacão Katrina, ao transformar redes sociais em redes de financiamento coletivo, as quais podem servir para compartilhar não apenas informação, mas bens físicos (Common Ground Collective, 2012)?

Redes Sociais

Ao longo dos últimos dez anos, as mídias digitais tornaram-se sociais, o que introduziu uma inovação genuína em relação às formas previas de software social (listas de email, fóruns, domínios multiusuário etc.). Se as listas de email, por exemplo, baseavam-se nas na linguagem comunicacional de enviar e receber, as redes sociais e a difusão de plug-ins sociais (proprietários) transformaram as relações sociais em si no conteúdo de novos procedimentos computacionais. Ao enviar e receber uma mensagem, podemos dizer que os algoritmos operam foram da relação social em si e, sim, no espaço de transmissão e distribuição de mensagens; já as redes sociais operam diretamente dentro dela. De fato, tecnologias digitais e redes sociais atravessam as relações sociais em si, ou seja, eles as transformam em objeto discreto e introduzem relações suplementares (Stiegler 2013). Se compreendermos, com Gabriel Tarde e Michel Foucault, a relação social como algo assimétrico e que envolve pelo menos dois polos (um, ativo e o outro, receptivo) e caracterizada por um certo grau de liberdade, podemos compreender ações como curtir e ser curtido, postar e ler, ver e ser visto, marcar e ser marcado e mesmo comprar e vender como tipos de condutos que transindividuam o social (eles induzem passagens do pré-individual, através do individual, até o coletivo).

Nos sites de redes sociais e nos plug-ins sociais, essas ações tornam-se objetos técnicos distintos (botões, caixas de comentários, tags etc.), os quais se ligam a estruturas de dados subjacentes (por exemplo, o Social Graph, do Facebook) e ficam sujeitos ao poder de classificação dos algoritmos. Isso produz a modalidade espaço-temporal característica da sociabilidade digital hoje: o feed, um fluxo de opiniões, crenças, afirmações, desejos, customizado algoritmicamente, expresso em palavras, imagens, sons, etc. Muito recriminados na teoria crítica contemporânea por seu efeito supostamente homogeneizante, essas novas tecnologias do social, contudo, também abrem a possibilidade de experimentação com a interação muitos-para-muitos e, assim, com o próprio processo de individuação. Experimentos políticos (os vários partidos baseados na internet, como o Movimento 5 Estrelas, o Partido Pirata e o Partido X) partem dos poderes dessas novas estruturas sócio-técnicas para produzir processos massivos de participação e deliberação, mas, assim como o Bitcoin, também demonstram as limitações dos processos que ligam a subjetivação política à automação algorítmica. Eles funcionam, contudo, porque utilizam uma variedade de novos saberes e habilidades socializados (como construir um perfil, como cultivar um público, como publicizar eventos) e “soft skills” (competências transversais) de expressão e relacionamento (humor, argumentação, discussão), as quais não são boas ou ruins em si, mas apresentam uma série de affordances ou graus de liberdade de expressão para a ação politica que não podem ser deixadas nas mãos de monopólios capitalistas, mas podem migrar para novas plataformas e serviços. Uma vez que algoritmos, como dissemos, não podem ser separados de agenciamentos sociais maiores, sua materialização dentro do red stack envolve o sequestro das tecnologias de redes sociais, a invenção de novos tipos de plug-ins e a construção de novas plataformas a partir da bricolagem inventiva de tecnologias existentes, a performance de novas subjetividades através de um deslocamento (detournement) do letramento generalizado nas mídias sociais.

Bio-hipermídia

O termo bio-hipermídia, criado por Giorgio Griziotti, identifica a relação cada vez mais íntima entre corpos e dispositivos digitais que faz parte da difusão de smartphones, tablets e da computação ubíqua. Enquanto as redes digitais se movem da centralidade do desktop ou mesmo do laptop rumo a dispositivos cada vez menores e mais portáteis, uma nova paisagem sócio-técnica emerge ao redor dos “apps” e da “nuvem”, a qual diretamente “interfere na nossa forma de sentir, perceber e compreender o mundo” [a bio-semiótica chama isso de “expansão do Umwelt humano c.f. Jorge Albuquerque Vieira] (Griziotti 2014, Portanova 2013). Bratton define esses “apps” para plataformas como Android e Apple como interfaces ou membranas que ligam dispositivos individuais a uma database maior, armazenada na “nuvem” (centros de processamento de dados e armazenamento gigantescos que pertencem a grandes corporações) (Bratton, 2013). Essa continuidade topológica permitiu a difusão de aplicativos baixáveis – ou apps – que modulam cada vez mais a relação entre corpos e espaço. Tais tecnologias não apenas “grudam na pele e respondem ao toque” (como já colocou Bruce Sterling uma vez), mas criam novas “zonas” ao redor dos corpos, que agora se movem através de “espaços codificados”, sobrepostos de informação, capaz de localizar corpos e lugares dentro de mapas interativos, informacionais e visuais. Novos ecossistemas espaciais emergentes do cruzamento entre o “natural” e o artificial permitem a ativaçãoo de um processo de co-criação caosmótica da vida urbana (Iaconesi e Persico, n.d.). Aqui, novamente, é possível ver como apps são para o capital apenas uma forma de “monetizar” e “acumular” dados sobre o movimentos dos corpos, enquanto os subsomem ainda mais rigidamente em redes de consumo e vigilância. Contudo, essa subsunção do corpo móvel sob o capital não implica que seja este necessariamente o único uso dessas novas affordances tecnológicas. Transformar a bio-hipermídia em componentes do “red stack” (o modo de reapropriação do capital fixo na era do social em rede) implica aproximar atuais experimentos com hardware (tecnologias shenzei de hackear celulares, maker movements etc) aptos a dar suporte a uma nova espécie de “apps imaginários” (pensemos, por exemplo, nos apps criados pelo coletivo artístico Electronic Disturbance Theatre, que permitem a imigrantes enganar controles de fronteira ou apps que localizam a origem de commodities, seus graus de exploração etc.)

Conclusão

Este pequeno ensaio, a síntese de uma pesquisa mais abrangente, pretende propor uma nova estratégia para a construção da infraestrutura maquínica do comum. A ideia fundamental é a de que as tecnologias da informação, que têm algoritmos como seu componente central, não constituem apenas uma ferramenta para o capital, mas constroem simultaneamente novas potencialidades para os modos neoliberais de governo e para os modos pós-capitalistas de produção. A questão aqui é abrir possíveis linhas de contaminação junto aos grandes movimentos de programadores, hackers e makers (fazedores) envolvidos num processo de recodificação da arquitetura das redes e das tecnologias da informação baseadas em outros valores, que não a troca e a acumulação, mas também levando em consideração o processo generalizado de letramento sócio-técnico que tem afetado grande parte da população mundial. É uma questão, portanto, de produzir uma convergência capaz de estender o problema da reprogramação da Internet para além das tendências recentes de corporatização e monetização, às custas da liberdade e pelo controle dos usuários. Uma convergência que ligue a comunicação bio-informacional a assuntos como a produção de um dinheiro do comum, capaz de socializar a riqueza, contra tendências correntes rumo à privatização, acumulação e concentração, afirmando que as redes sociais e as competências comunicacionais difusas podem funcionar como uma maneira de organizar a cooperação e produzir novos saberes e valores. Significa buscar uma nova síntese política que nos leve para longe do paradigma neoliberal do débito, da austeridade e da acumulação. Isto não é uma utopia, mas um programa para a invenção dos algoritmos sociais constituintes do comum.

Primeiro Cinema

Abaixo, alguns marcos da história do cinema, referência dos procedimentos de linguagem de que falamos na 1ª aula:


Grandma’s reading glass, 1900
Uma primeira estrutura de olhar-coisa olhada, ponto de vista, close up, ainda justificada pela máscara/lente


Stop Thief! 1901
Um dos primeiros “filmes de perseguição”, ainda sem a regra de eixo de direção de movimento.


Life of an American Fireman, 1903
Uma das primeiras tentativas de montagem paralela, ainda tateante.


The Great Train Robbery, Edwin S. Porter, 1903
A linguagem já começa a se sistematizar: montagem paralela, planos de detalhe, campo/contracampo. Mas… onde colocar aquele close up frontal no final???


The Girl and her Trust, D.W. Griffith, 1912
O “grau zero” da linguagem já praticamente estabelecido.

 

Artivismo – Sesc 2014

(Rascunho de um post que será organizado  mais tarde)

Games:

Molleindustria: site que reúne os games de Paolo Pedercini, alguns dos quais citei em aula  (Memory Reloaded, Everyday the Same Dream, McDonald’s Game)

September 12th, sobre a Guerra ao Terror

sesc2014_01 – Aula 01

Sesc aula 02

Arte e política: a ação irmã do sonho, por Evelyne Pieller

Arte e política: estudos de Jacques Rancière, por Rodrigo Guéron

Só diversão

O que queremos?

O vai e vem das ondas digitais me trouxe a notícia: Brasileiros lançam game Favela Wars. Pelo que informam matéria e trailer, temos aí mais um jogo de estratégia entre grupos antagônicos, agora passado na favela carioca. O servidor estava fora do ar no momento em que o jornalista tentou jogar, o que é um bom indício de sucesso inicialmente e os desenvolvedores anunciam que já trabalham para portar o jogo para iOS e Android, seguindo as tendências do mercado.

Uma empreitada desse porte será, com alguma razão, provavelmente celebrada por pelo menos parte da “classe” – jogadores, desenvolvedores, associações de empresários, jornalistas e acadêmicos dos games – mas o que me chamou atenção foi a declaração à Folha do diretor do Estúdio Nano, que produziu o Favela Wars: “não queremos fazer uma crítica social, é só um game de diversão”. Depois essa mesma “classe” reclama da famigerada declaração da Ministra da Cultura, Marta Suplicy: “games não são cultura”

Na declaração, Estúdio Nano e MinC se encontram na visão (limitada) de cultura e do que podem os games. Quando um ministério – e um governo – patinam nesse entendimento de cultura e tratam games exclusivamente como tecnologia, entretenimento ou comércio, dá nisso: a gente tem que celebrar um jogo que se chama Favela Wars como horizonte de nossas possibilidades estéticas, políticas e até mesmo comerciais.

Se agir como de costume, boa parte da “classe” defenderá o anglicismo do título como necessário à “inserção no mercado internacional” e nem se importará em questionar a propagação da favela apenas como lugar do crime e da violência. Talvez nem sequer repare no perfil étnico dos dois times: policiais – que têm “técnica, disciplina e precisão” – de pele clara e traficantes – descritos a partir da frase “a morte vem de cima” – de pele escura. Será surpreendente também se alguém chamar atenção para a filiação problemática do game ao universo estabelecido pelo filme Tropa de Elite (a parte I, pois mesmo a parte II já fez alguma auto-crítica…), de celebração dos “caveiras” em sua excelência técnica e demonização dos traficantes em sua maldade – sem nuance pra nenhum dos dois lados.

A adoção do anglicismo é mais um sintoma do isolamento de um nicho que, inclusive pelo posicionamento ambíguo do MinC, não emerge efetivamente da cultura local (na medida em que isso é possível), nem parece querer dialogar com ela de forma mais plena. Por isso, se preocupa mais em se adequar a requisitos “de mercado” e fazer algo que é “só diversão”, em vez de, por exemplo, aproveitar a natureza aberta da forma jogo para colocar em ação a complexidade das formas de vida que são inventadas e levadas adiante nas favelas – pra me ater ao universo temático do game em questão.

Ora, se esse modelo “industrial” tem dado sinais de cansaço mesmo lá onde a indústria (do entretenimento, que inclui a do game) de fato existe, por que haveria de funcionar aqui? Se não funciona aqui nem para o cinema, modelo muito mais homogêneo, por que haveria de funcionar para uma forma heterogênea, não sistematizada nem como narrativa e nem como linguagem? Se mesmo nos EUA e Europa, onde pululam milhões pra a produção de games com a fina flor da tecnologia e roteiros de duas mil páginas, quem ganhou todos os prêmios de melhor jogo do ano em 2012 foi um game “indie” como Journey, por que haveria o Brasil de seguir pelo caminho da indústria de jogos “só de diversão”, pensados como tecnologia para alimentar um mercado cada vez mais estéril? E, ainda: por que haveríamos de querer esse modelo, mesmo se ele funcionasse a contento num contexto totalmente diverso do nosso, se podemos mais e melhor???

A discussão que precisa ser levada adiante pela “classe”, a meu ver, não é nem a do Vale Cultura – que deveria ser apenas um paliativo e não o carro chefe das políticas públicas do MinC – e nem a do “game é cultura?” – porque a resposta pra essa última pergunta é óbvia (dica: até mesmo o Favela Wars é cultura!). O que a “classe” dos games deveria estar debatendo (unindo-se aí a um coro muito mais amplo) é qual conceito de cultura embasa (ou deveria embasar) o MinC e, a partir daí, quais políticas públicas precisam ser encampadas para que os games possam florescer não apenas como tecnologia e comércio – dupla-chave por trás das obras que se pretendem “só diversão” e encampam o engessadíssimo neo(pseudo)desenvolvimentismo do governo federal – mas como terreno de uso, experimentação, reapropriação, modificação diversos e potentes.

E essa discussão, entre a euforia celebratória de uma “proto-indústria” e a gritaria em torno do famigerado pronunciamento da Ministra, eu ainda não vi. Terei perdido alguma coisa?

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Update: que cultura o quê, game é coisa do demo!!! Hahaha…